Vez ou outra eu queria
- Queria mesmo -
Escrever aqui umas linhas de Carnaval,
De conquista de Copa do Mundo.
Mas quem me conhece, sabe :
Vibro quando chove no desfile das escolas de samba,
Torço para a Argentina vencer de goleada.
Volta e meia acontece de eu querer
- Querer mesmo -
Escrever aqui umas linhas de férias, com pipas coloridas ao ar,
De travessura de quem não fez lição de casa,
De folia de gatos em telhados de lua cheia.
Mas quem comigo se deu, sabe :
Que o vento nunca me foi dos mais favoráveis,
Que sempre gostei mais de livros que de gente
E que, nos últimos tempos, ando com relativo medo de saltar pelos muros.
Avis rara sucede de eu querer
- Querer bestamente -
Escrever aqui umas linhas alvas, limpas e lhanas,
Sem coágulos nem rasuras,
De linho, de bicho-da-seda.
Mas quem me sabe, sabe :
Minha caneta é de mau-agouro,
Só deixa rastros tortuosos e alcantilados
Cheios de grumos e obstruções,
Varizes arroxeadas
terça-feira, 27 de abril de 2010
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Manuel Maria Barbosa du Bocage, o Bocage
O Soneto do Epitáfio
Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia – o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:
Não quero funeral comunidade,
que engrole sob-venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:
Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:
"Aqui dorme Bocage, o putanheiro:
Passou a vida folgada, e milagrosa:
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.
Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia – o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:
Não quero funeral comunidade,
que engrole sob-venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:
Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:
"Aqui dorme Bocage, o putanheiro:
Passou a vida folgada, e milagrosa:
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
A Marreta Do Morales
Evo Morales, presidente da Bolívia, disse em uma conferência ambiental que os homens que queiram manter sua virilidade e cabelos não devem consumir carne de frango. Morales afirma que os produtores injetam hormônio feminino no animal para que esse ganhe peso rapidamente; tais hormônios causariam problemas na orientação sexual das pessoas do sexo masculino, nas palavras de Morales : "quando os homens comem esses frangos, têm desvios em seu ser como homens."
As declarações de Morales já se tornaram piada nas mãos dos órgãos da imprensa mundial, aliás ridicularizar uma declaração é a maneira mais usual da imprensa desacreditá-la. Quando alguém tem coragem de dizer algo sério e grave, que vai contra os manipuladores do poder, sua declaração é tornada em piada, com o claro objetivo de neutralizar sua veracidade.
Negar que são usados hormônios na carne de frango? Hoje, um frango de granja fica pronto para o abate em cerca de 40, 45 dias. Tudo na base do milho e da soja? Tá bom, eu acredito.
Se esses hormônios têm realmente algum efeito na sexualidade de indivíduos do sexo masculino, já é outra questão, passível de averiguação. Averiguação que logicamente não será feita, ou até será, mas por laboratórios pagos pelos produtores de frango.
O que sei também é que todas as associações dos criadores de frango manifestaram seu repúdio às declarações de Morales e um sem-número de desmentidos já foram publicados. Quando alguém começa muito a desmentir uma coisa é porque nesse mato tem coelho. Se as declarações do boliviano fossem tão absurdas, ninguém se daria ao trabalho de desmenti-las ou ridicularizá-las.
E mais: hormônio é hormônio, sempre causa algum efeito. Ou alguém acha mesmo coincidência as meninas menstruarem hoje bem mais precocemente que suas mães e avós? Com 9, 10 anos tem muita criança menstruando por aí. Evolução? Porra nenhuma, hormônios na alimentação, mesmo.
E os hormônios não são o único fator da viadagem que se alastra pelo planeta, há o caso dos ftalatos, por exemplo. Usados em plásticos, substâncias oleosas para perfumes, sprays para cabelos e lubrificantes. Sabem aquele cheirinho de carro novo? Pois bem, puro ftalato que se desprende do painel do carro quando aquecido pelo sol. Os ftalatos, e isso é cientificamente comprovado, tem o efeito de bloquear, na fase fetal, os receptores de testosterona do embrião podendo levar à sua desmasculinização.
Não sei o motivo, mas há um complô mundial para propagar a viadagem. Algum tipo de controle de natalidade? Não sei, mesmo.
Odeio dizer isso, mas Evo Morales provavelmente está, nesse caso, coberto de razão.
As declarações de Morales já se tornaram piada nas mãos dos órgãos da imprensa mundial, aliás ridicularizar uma declaração é a maneira mais usual da imprensa desacreditá-la. Quando alguém tem coragem de dizer algo sério e grave, que vai contra os manipuladores do poder, sua declaração é tornada em piada, com o claro objetivo de neutralizar sua veracidade.
Negar que são usados hormônios na carne de frango? Hoje, um frango de granja fica pronto para o abate em cerca de 40, 45 dias. Tudo na base do milho e da soja? Tá bom, eu acredito.
Se esses hormônios têm realmente algum efeito na sexualidade de indivíduos do sexo masculino, já é outra questão, passível de averiguação. Averiguação que logicamente não será feita, ou até será, mas por laboratórios pagos pelos produtores de frango.
O que sei também é que todas as associações dos criadores de frango manifestaram seu repúdio às declarações de Morales e um sem-número de desmentidos já foram publicados. Quando alguém começa muito a desmentir uma coisa é porque nesse mato tem coelho. Se as declarações do boliviano fossem tão absurdas, ninguém se daria ao trabalho de desmenti-las ou ridicularizá-las.
E mais: hormônio é hormônio, sempre causa algum efeito. Ou alguém acha mesmo coincidência as meninas menstruarem hoje bem mais precocemente que suas mães e avós? Com 9, 10 anos tem muita criança menstruando por aí. Evolução? Porra nenhuma, hormônios na alimentação, mesmo.
E os hormônios não são o único fator da viadagem que se alastra pelo planeta, há o caso dos ftalatos, por exemplo. Usados em plásticos, substâncias oleosas para perfumes, sprays para cabelos e lubrificantes. Sabem aquele cheirinho de carro novo? Pois bem, puro ftalato que se desprende do painel do carro quando aquecido pelo sol. Os ftalatos, e isso é cientificamente comprovado, tem o efeito de bloquear, na fase fetal, os receptores de testosterona do embrião podendo levar à sua desmasculinização.
Não sei o motivo, mas há um complô mundial para propagar a viadagem. Algum tipo de controle de natalidade? Não sei, mesmo.
Odeio dizer isso, mas Evo Morales provavelmente está, nesse caso, coberto de razão.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
A Natureza Vai Acabar Ficando Chata
A fotossíntese é o processo que mantém a quase totalidade da vida no planeta, um processo onde são fabricados a matéria orgânica e gás oxigênio a partir de substâncias simples, a saber, gás carbônico e água, utilizando para tal reação a energia do sol.Não são todos os seres capazes de tal prodígio, apenas os clorofilados - vegetais, algas unicelulares e umas poucas bactérias. A clorofila é a molécula que os permite absorver a energia do sol e iniciar a fotossíntese, todos os outros seres não citados são parasitas dos fotossintetizantes, incluso o ser humano.
Foi descoberta, porém, uma lesma (Elysia chlorotica) que adquire temporariamente a capacidade de realizar a fotossíntese depois de ingerir uma certa alga, da qual obtém os cloroplastos. Os genes responsáveis pelo processo já se encontram no genoma da lesma, ela só não consegue ainda reter o material necessário, os cloroplastos.
Um dia, se a lesma conseguir reter os cloroplastos e transmiti-los às gerações seguintes, estará completa a transformação desse animal num híbrido "planta-bicho".
Já imaginaram se a moda pega? De uma hora pra outra todos os animais também começam a realizar a fotossíntese e fabricar seu próprio alimento? Acabaria a predação, a matança, a competição.
Pelo jeito, que São Darwin não permita, a natureza está querendo se tornar boazinha, tornar-se "politicamente correta". Puta que o pariu. Até a boa, velha, carniceira e sanguinolenta natureza está querendo embarcar na tal "onda verde".
Vai ficar muito chato!
Para informações mais detalhadas, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO.
O Criador de Porcos
A sociedade brasileira não valoriza o conhecimento, a dedicação aos estudos, o saber conseguido arduamente - o único que permanece -, ninguém aprende nada que preste brincando, à merda com o tal do lúdico, se alguém já te disse alguma vez que aprender é divertido, foi porque essa pessoa também estava mais a fim de se divertir do que lhe ensinar;
os meios de comunicação só valorizam o fútil, a degradação moral, a vagabundagem e a putaria;
a própria família brasileira só vê a escola como um lugar que toma conta de seus filhos enquanto os pais trabalham, a escola tem de guardar, zelar, alimentar, dar a educação que os pais deveriam dar em casa e, caso sobre tempo, mas só mesmo em último caso, ensinar algo sobre as áreas básicas do conhecimento humano.
Resultado disso tudo: o aluno não presta atenção às aulas e muito menos estuda em casa; vai mal na prova, é óbvio.
E aí, claro, a culpa não é do vagabundo ou de sua família que não o cobra, claro que não. A culpa é do professor, que não sabe ensinar. Pior, que não sabe avaliar, nas palavras de uns peidagogos filhos das putas. Segundo essa corja, se o aluno vai mal é porque a avaliação foi errada. Segundo esses escrotos, é impossível que o aluno não tenha absorvido nada. Eu lhes asseguro: é possível sim.
Avaliação errada... ora, vão todos à porra.
Se eu domino um assunto, podem me avaliar da maneira que for, eu irei me sair bem. Não tem nada de avaliação errada, o que há é a mais pura falta de conteúdo.
As direções das escolas, outra corja a ser extirpada, apoiam tais ideais peidagógicas, põem tudo no rabo do professor. É mais fácil dizer aos pais, sempre com o ECA (estatuto da criança e adolescente) nas mãos e dispostos a processar o primeiro que falar mal de seus delinquentes, que o professor é quem está falhando.
O professor não é capacitado, o professor não sabe ensinar e, de uns tempos para cá, o professor não sabe avaliar.
Isso me lembrou a história do criador de porcos.
"O cara criava lá seus porquinhos até que, um dia, recebeu a visita de um agente da vigilância sanitária. O agente criticou as condições de higiene dos chiqueiros e perguntou o que os porcos comiam. Comida de porco, respondeu o criador, lavagem, a gente vai junto restos de comida num tambor e depois dá para os porcos.
O agente ficou indignado. Onde já se viu tal descuido, disse ao criador, aquela comida podre toda fermentando, podia criar uma bactéria mortal e afetar a saúde do consumidor. Multou pesadamente o criador.
Passado um tempo, o agente voltou e os chiqueiros estavam todos azulejados, desinfetados, com água encanada e etc. Perguntou novamente o que os porcos comiam. Foi informado que agora os animais tinham só vegetais frescos, abóboras, alfaces, pepinos, mandioca, todos vindo diretamente do CEASA. Foi multado de novo, ainda mais pesadamente. Chega a ser um crime, disse o agente, com tanta gente, com tanta criança passando fome por aí e os porcos comendo do bom e do melhor.
Na terceira visita do agente da vigilância, inquirido sobre o cardápio dos porcos, o criador respondeu : - eu não estou dando mais comida nenhuma, eu dou 10 reais na mão de cada um e eles vão comer onde quiserem."
O peidagogo é o agente da vigilância sanitária, não sabe porra nenhuma de criar porcos e fica dando palpites: não é assim que se dá aula, não é isso que tem de ser ensinado, não é assim que se avalia e blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá.
Eu, há alguns anos, venho fazendo o mesmo do criador dos porcos.
Eu não dou mais provas, não dou mais notas vermelhas, não cobro que o vagabundo estude, nada disso. Eu chego e dou a minha aula, com competência, qualidade e conteúdo, como sempre fiz.
E o aluno que faça com ela o que bem entender.
os meios de comunicação só valorizam o fútil, a degradação moral, a vagabundagem e a putaria;
a própria família brasileira só vê a escola como um lugar que toma conta de seus filhos enquanto os pais trabalham, a escola tem de guardar, zelar, alimentar, dar a educação que os pais deveriam dar em casa e, caso sobre tempo, mas só mesmo em último caso, ensinar algo sobre as áreas básicas do conhecimento humano.
Resultado disso tudo: o aluno não presta atenção às aulas e muito menos estuda em casa; vai mal na prova, é óbvio.
E aí, claro, a culpa não é do vagabundo ou de sua família que não o cobra, claro que não. A culpa é do professor, que não sabe ensinar. Pior, que não sabe avaliar, nas palavras de uns peidagogos filhos das putas. Segundo essa corja, se o aluno vai mal é porque a avaliação foi errada. Segundo esses escrotos, é impossível que o aluno não tenha absorvido nada. Eu lhes asseguro: é possível sim.
Avaliação errada... ora, vão todos à porra.
Se eu domino um assunto, podem me avaliar da maneira que for, eu irei me sair bem. Não tem nada de avaliação errada, o que há é a mais pura falta de conteúdo.
As direções das escolas, outra corja a ser extirpada, apoiam tais ideais peidagógicas, põem tudo no rabo do professor. É mais fácil dizer aos pais, sempre com o ECA (estatuto da criança e adolescente) nas mãos e dispostos a processar o primeiro que falar mal de seus delinquentes, que o professor é quem está falhando.
O professor não é capacitado, o professor não sabe ensinar e, de uns tempos para cá, o professor não sabe avaliar.
Isso me lembrou a história do criador de porcos.
"O cara criava lá seus porquinhos até que, um dia, recebeu a visita de um agente da vigilância sanitária. O agente criticou as condições de higiene dos chiqueiros e perguntou o que os porcos comiam. Comida de porco, respondeu o criador, lavagem, a gente vai junto restos de comida num tambor e depois dá para os porcos.
O agente ficou indignado. Onde já se viu tal descuido, disse ao criador, aquela comida podre toda fermentando, podia criar uma bactéria mortal e afetar a saúde do consumidor. Multou pesadamente o criador.
Passado um tempo, o agente voltou e os chiqueiros estavam todos azulejados, desinfetados, com água encanada e etc. Perguntou novamente o que os porcos comiam. Foi informado que agora os animais tinham só vegetais frescos, abóboras, alfaces, pepinos, mandioca, todos vindo diretamente do CEASA. Foi multado de novo, ainda mais pesadamente. Chega a ser um crime, disse o agente, com tanta gente, com tanta criança passando fome por aí e os porcos comendo do bom e do melhor.
Na terceira visita do agente da vigilância, inquirido sobre o cardápio dos porcos, o criador respondeu : - eu não estou dando mais comida nenhuma, eu dou 10 reais na mão de cada um e eles vão comer onde quiserem."
O peidagogo é o agente da vigilância sanitária, não sabe porra nenhuma de criar porcos e fica dando palpites: não é assim que se dá aula, não é isso que tem de ser ensinado, não é assim que se avalia e blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá.
Eu, há alguns anos, venho fazendo o mesmo do criador dos porcos.
Eu não dou mais provas, não dou mais notas vermelhas, não cobro que o vagabundo estude, nada disso. Eu chego e dou a minha aula, com competência, qualidade e conteúdo, como sempre fiz.
E o aluno que faça com ela o que bem entender.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Escolas-Coliseu
Via de regra, ninguém gosta de se sentir obrigado a algo. Mas por que nos sentimos obrigados a certas tarefas e não a outras? Acredito que nos sintamos forçados por ocasião do realizar de uma tarefa cuja execução nos é penosa, difícil, aviltante em alguns casos na nossa concepção; quando um encargo nos é leve e fluido, deixa até de ser obrigação - torna-se diversão, prazer.
E por que algumas atividades nos torturam enquanto que outras inclusive nos reconfortam? Essa resposta é fácil. Vem da habilidade natural de cada um, aquela aptidão inata programada em nosso chip, o DNA. Se temos o dom para algo, é prazer; senão é obrigação, aporrinhação.Por isso, sou a favor de que sejamos, dosadamente, obrigados a trabalhos que não caibam em nossos talentos congênitos.
Eu sou canhoto, nasci assim. Da minha primeira até minha terceira série primária, fui obrigado pela escola a treinar também a escrita destra. Preenchi um sem-número de cadernos de caligrafia às custas das contorções quase epilépticas de minha desajeitada mão direita. E cheguei a adquirir uma grafia destra bastante compreensível. A partir da quarta série, eu com meus 10 anos de idade, não se falou mais do uso de minha mão direita. Era o ano de 1977 e, acho, as novas peidagogias - os Skinners e behavioristas da vida - começavam a se infiltrar no tecido sadio da educação e, lentamente, iniciar sua gangrena gasosa : fui liberado do uso de minha "destreza".
Gostei disso na época, claro que gostei. Hoje - e já há muito, muito tempo - não restou nada da habilidade de escrita conquistada por minha mão direita, mas percebo que sou mais hábil que a maioria dos canhotos em várias atividades com minha mão direita; desde o manuseio do abridor de latas ao do mouse do computador. Essa minha literal destreza maior não teria vindo da obrigação a que fui submetido? Claro que sim.
E só disse de habilidades motoras até então. Só que habilidades motoras são meramente resultados de novas vias inauguradas no cérebro. Quantas novas estradas, em meu córtex cerebral, não foram terraplanadas, asfaltadas, iluminadas, sinalizadas e postas em condições de tráfego pelo simples fato de eu ter sido obrigado ao uso de minha mão direita?
Quantas eclusas não me foram abertas pela "intransigência" de um modelo de Escola dito massacrante e antipedagógico pelas peidagogias atuais e vigentes? Em quanto não devo esse meu Q.I. notadamente superior à média ao autoritarismo de minhas tacanhas e paquidérmicas "tias" do primário? Quantas novas rotas de pensamento não se acenderam para mim?
Muitas, tenho certeza de que muitas. Forçar o corpo é exercitar a mente; escravizar o corpo é alforriar a mente. Por mais essa razão, abaixo a peidagogia que preconiza apenasmente (como diria Odorico Paraguaçu) a valorização da bagagem pregressa do aluno, abaixo a peidagogia que "respeita" as habilidades e competências naturais e cotidianas do educando; o cotidiano e o senso comum que vão às putas que os pariram!
Quero o retorno à verdadeira Educação. Aquela que confrontava o aluno com suas inabilidades e incompetências em um gládio de morte, quero que a Escola volte a ser um coliseu. Se os leões vencerem, paciência.
No meu caso, arranquei-lhes as jubas.
E por que algumas atividades nos torturam enquanto que outras inclusive nos reconfortam? Essa resposta é fácil. Vem da habilidade natural de cada um, aquela aptidão inata programada em nosso chip, o DNA. Se temos o dom para algo, é prazer; senão é obrigação, aporrinhação.Por isso, sou a favor de que sejamos, dosadamente, obrigados a trabalhos que não caibam em nossos talentos congênitos.
Eu sou canhoto, nasci assim. Da minha primeira até minha terceira série primária, fui obrigado pela escola a treinar também a escrita destra. Preenchi um sem-número de cadernos de caligrafia às custas das contorções quase epilépticas de minha desajeitada mão direita. E cheguei a adquirir uma grafia destra bastante compreensível. A partir da quarta série, eu com meus 10 anos de idade, não se falou mais do uso de minha mão direita. Era o ano de 1977 e, acho, as novas peidagogias - os Skinners e behavioristas da vida - começavam a se infiltrar no tecido sadio da educação e, lentamente, iniciar sua gangrena gasosa : fui liberado do uso de minha "destreza".
Gostei disso na época, claro que gostei. Hoje - e já há muito, muito tempo - não restou nada da habilidade de escrita conquistada por minha mão direita, mas percebo que sou mais hábil que a maioria dos canhotos em várias atividades com minha mão direita; desde o manuseio do abridor de latas ao do mouse do computador. Essa minha literal destreza maior não teria vindo da obrigação a que fui submetido? Claro que sim.
E só disse de habilidades motoras até então. Só que habilidades motoras são meramente resultados de novas vias inauguradas no cérebro. Quantas novas estradas, em meu córtex cerebral, não foram terraplanadas, asfaltadas, iluminadas, sinalizadas e postas em condições de tráfego pelo simples fato de eu ter sido obrigado ao uso de minha mão direita?
Quantas eclusas não me foram abertas pela "intransigência" de um modelo de Escola dito massacrante e antipedagógico pelas peidagogias atuais e vigentes? Em quanto não devo esse meu Q.I. notadamente superior à média ao autoritarismo de minhas tacanhas e paquidérmicas "tias" do primário? Quantas novas rotas de pensamento não se acenderam para mim?
Muitas, tenho certeza de que muitas. Forçar o corpo é exercitar a mente; escravizar o corpo é alforriar a mente. Por mais essa razão, abaixo a peidagogia que preconiza apenasmente (como diria Odorico Paraguaçu) a valorização da bagagem pregressa do aluno, abaixo a peidagogia que "respeita" as habilidades e competências naturais e cotidianas do educando; o cotidiano e o senso comum que vão às putas que os pariram!
Quero o retorno à verdadeira Educação. Aquela que confrontava o aluno com suas inabilidades e incompetências em um gládio de morte, quero que a Escola volte a ser um coliseu. Se os leões vencerem, paciência.
No meu caso, arranquei-lhes as jubas.
domingo, 18 de abril de 2010
Waly Salomão
AMANTE DA ALGAZARRA
Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto.
É ela !!!
Todo mundo sabe, sou uma lisa flor de pessoa,
Sem espinho de roseira nem áspera lixa de folha de figueira.
Esta amante da balbúrdia cavalga encostada ao meu sóbrio ombro
Vixe!!!
Enquanto caminho a pé, pedestre -- peregrino atônito até a morte.
Sem motivo nenhum de pranto ou angústia rouca ou desalento:
Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto
E se apossou do estojo de minha figura e dela expeliu o estofo.
Quem corre desabrida
Sem ceder a concha do ouvido
A ninguém que dela discorde
É esta
Selvagem sombra acavalada que faz versos como quem morde.
Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto.
É ela !!!
Todo mundo sabe, sou uma lisa flor de pessoa,
Sem espinho de roseira nem áspera lixa de folha de figueira.
Esta amante da balbúrdia cavalga encostada ao meu sóbrio ombro
Vixe!!!
Enquanto caminho a pé, pedestre -- peregrino atônito até a morte.
Sem motivo nenhum de pranto ou angústia rouca ou desalento:
Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto
E se apossou do estojo de minha figura e dela expeliu o estofo.
Quem corre desabrida
Sem ceder a concha do ouvido
A ninguém que dela discorde
É esta
Selvagem sombra acavalada que faz versos como quem morde.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Lorde Caos X Mestre Ordem
Tudo no Universo - no conhecido, pelo menos - é composto por átomos e seus mais diversos arranjos e combinações. A estabilidade dessas combinações é tanto maior quanto menor a energia necessária para mantê-la; o Universo prima pelos eventos de menor energia, sempre.
E para manter tudo em ordem, gasta-se uma quantidade gigantesca de energia. O Universa prima, portanto, pelo Caos e não pela Ordem. Ao menos, não pelo conceito de ordem estabelecido pelos humanos em suas atividades; se o Universo tem uma ordem, é de um tipo que não conseguimos reconhecer, portanto, humano que sou, vou seguir dizendo que o Universo tende ao Caos, tem predileção pela desordem.
E para manter tudo em ordem, gasta-se uma quantidade gigantesca de energia. O Universa prima, portanto, pelo Caos e não pela Ordem. Ao menos, não pelo conceito de ordem estabelecido pelos humanos em suas atividades; se o Universo tem uma ordem, é de um tipo que não conseguimos reconhecer, portanto, humano que sou, vou seguir dizendo que o Universo tende ao Caos, tem predileção pela desordem.
Para piorar, a parca compreensão humana do Universo é dicotômica, o que sempre faz desaguar no embate de duas forças antagônicas: o Caos e a Ordem, nesse caso. Logo existem agentes do Caos e agentes da Ordem, recrutados entre nós.
Os agentes do Caos são sempre simpáticos, agradáveis, galanteadores, estão sempre de bem com a vida, sempre de bom humor - até porque é fácil ficar de bom humor quando não se tem compromisso com nada ou, melhor ainda, com a desordem. Os agentes do Caos andam sempre aos bandos, barulhentos, numa alegria imbecil, numa efusividade exibicionista. São os legais, são os que sempre são chamados para as festas.
Os agentes da Ordem não são muito bem-vistos, não chegam dando beijinhos em todo mundo, mal dizem bom dia, isso quando dizem, não têm o riso fácil e não se impõem a obrigação de agradar ao mundo. Os agentes da Ordem são quem apontam as falhas, as imperfeições, a função deles é justamente denunciar a falta da Ordem, por isso são chamados de chatos, de pessimistas, de pessoas negativas e acusados de serem desmancha-prazeres. Evitam as aglomerações humanas. São solitários. Nunca são chamados para as festas.
Como alguém se torna um agente do Caos ou um agente da Ordem? Não se torna, nasce-se.
Nasce-se e é imediatamente recrutado pelo Universo, para um ou para outro exército.
Portanto eu não sou chato, ranzinza, carrancudo, emburrado, ranheta ou rabugento.
De maneira alguma.
Eu só fui recrutado pelo exército errado, pelo exército que briga contra o Universo.
Os agentes do Caos são sempre simpáticos, agradáveis, galanteadores, estão sempre de bem com a vida, sempre de bom humor - até porque é fácil ficar de bom humor quando não se tem compromisso com nada ou, melhor ainda, com a desordem. Os agentes do Caos andam sempre aos bandos, barulhentos, numa alegria imbecil, numa efusividade exibicionista. São os legais, são os que sempre são chamados para as festas.
Os agentes da Ordem não são muito bem-vistos, não chegam dando beijinhos em todo mundo, mal dizem bom dia, isso quando dizem, não têm o riso fácil e não se impõem a obrigação de agradar ao mundo. Os agentes da Ordem são quem apontam as falhas, as imperfeições, a função deles é justamente denunciar a falta da Ordem, por isso são chamados de chatos, de pessimistas, de pessoas negativas e acusados de serem desmancha-prazeres. Evitam as aglomerações humanas. São solitários. Nunca são chamados para as festas.
Como alguém se torna um agente do Caos ou um agente da Ordem? Não se torna, nasce-se.
Nasce-se e é imediatamente recrutado pelo Universo, para um ou para outro exército.
Portanto eu não sou chato, ranzinza, carrancudo, emburrado, ranheta ou rabugento.
De maneira alguma.
Eu só fui recrutado pelo exército errado, pelo exército que briga contra o Universo.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Dia Internacional do Café
Comemora-se, hoje, 14 de abril, o Dia Internacional do Café.
Fiquei sabendo da data via e-mails que recebi, e-mails que continham também inúmeras variações da receita do bom e velho cafezinho. Café com sorvete, café gelado, frapê de café, coquetel de frutas e café e até um relaxante cataplasma de café para uso em massagens.
Usando da cordialidade que me é peculiar,vos digo : vão todos às putas que os pariram!
Café é café. Bebida forte, básica e rústica. Feita o pastor que a descobriu. Alguém já imaginou o pastorzinho tomando um coquetel de frutas e café? O coitado ficaria desmoralizado até entre as cabras sob a sua vigilância.
Café não tem frescura. Viado pode até beber, mas não é bebida de viado.
Para combater essas variantes que querem pôr em dúvida a hombridade do café, eu registro aqui a única receita do verdadeiro café.
CAFÉ DE MACHO
Duas colheres de sopa de pó para cada 200 ml de água (o famoso copo de requeijão, que macho não fica comprando copinho de cristal), nada daquelas dosagens para mariquinhas que vem nos rótulos das embalagens, aquelas receitas de chá na base de 3 a 4 colheres por litro
(O café deve ser do mais barato encontrado, que macho não se apega a essa coisa de café reserva especial, tipo exportação, macho não dá pelota ao blend do café);
Colocar o café no coador enquanto espera a fervura da água
(o coador tem que ser obrigatoriamente de pano, nada daqueles coadores de papel com microporos e o cacete a quatro);
Jogar a água fervendo, em movimentos circulares, sobre o pó no coador
(mas é fervendo mesmo, a ponto da água estar quase escapando da vasilha de ferro ágate, que macho só usa vasilha de ferro ágate para ferver água, nada das recomendações do rótulo que dizem para jogar a água quando ela mostrar "sinais" de fervura, que macho só toma café escalda-língua);
Nada de açúcar; adoçante, então, nem se cogita, a não ser que o tomante tenha pendores em ceder a rabiola;
Aí é só pôr numa caneca tosca de cerâmica e tomar;
De preferência por volta das 5, 6 horas da manhã, pingando de sono e com aquela baita ressaca, que macho também não acorda indisposto, com dorzinha de cabeça.
Usando da cordialidade que me é peculiar,vos digo : vão todos às putas que os pariram!
Café é café. Bebida forte, básica e rústica. Feita o pastor que a descobriu. Alguém já imaginou o pastorzinho tomando um coquetel de frutas e café? O coitado ficaria desmoralizado até entre as cabras sob a sua vigilância.
Café não tem frescura. Viado pode até beber, mas não é bebida de viado.
Para combater essas variantes que querem pôr em dúvida a hombridade do café, eu registro aqui a única receita do verdadeiro café.
CAFÉ DE MACHO
Duas colheres de sopa de pó para cada 200 ml de água (o famoso copo de requeijão, que macho não fica comprando copinho de cristal), nada daquelas dosagens para mariquinhas que vem nos rótulos das embalagens, aquelas receitas de chá na base de 3 a 4 colheres por litro
(O café deve ser do mais barato encontrado, que macho não se apega a essa coisa de café reserva especial, tipo exportação, macho não dá pelota ao blend do café);
Colocar o café no coador enquanto espera a fervura da água
(o coador tem que ser obrigatoriamente de pano, nada daqueles coadores de papel com microporos e o cacete a quatro);
Jogar a água fervendo, em movimentos circulares, sobre o pó no coador
(mas é fervendo mesmo, a ponto da água estar quase escapando da vasilha de ferro ágate, que macho só usa vasilha de ferro ágate para ferver água, nada das recomendações do rótulo que dizem para jogar a água quando ela mostrar "sinais" de fervura, que macho só toma café escalda-língua);
Nada de açúcar; adoçante, então, nem se cogita, a não ser que o tomante tenha pendores em ceder a rabiola;
Aí é só pôr numa caneca tosca de cerâmica e tomar;
De preferência por volta das 5, 6 horas da manhã, pingando de sono e com aquela baita ressaca, que macho também não acorda indisposto, com dorzinha de cabeça.
Acervo Digital da Revista Veja
A Revista Veja liberou o seu acervo digital em comemoração aos seus 40 anos de atividades. Estão lá todas as edições digitalizadas, desde a primeira, em 11 de setembro de 1968.
Particularmente, eu não simpatizo muito com a linha de pensamento da Veja; admito, porém, que é uma imensa e importante fonte de consulta e pesquisa. Um gigantesco painel político, econômico, cultural e de costumes do Brasil nas últimas quatro décadas, claro que pelo prisma de Veja, mas se torna um vasto e valioso cabedal de informações para quem tem um bom "filtro" .
O link: http://veja. abril.com. br/acervodigital /Particularmente, eu não simpatizo muito com a linha de pensamento da Veja; admito, porém, que é uma imensa e importante fonte de consulta e pesquisa. Um gigantesco painel político, econômico, cultural e de costumes do Brasil nas últimas quatro décadas, claro que pelo prisma de Veja, mas se torna um vasto e valioso cabedal de informações para quem tem um bom "filtro" .
terça-feira, 13 de abril de 2010
Videobiografias
Gosto de produzir-me, cansaço.
Andar por quilômetros aprazíveis,
Só andar, só as pernas a funcionarem.
Gosto de produzir-me, pensamento.
Estático, olhos vidrados,
Reescrevendo-me em língua morta
Ao invés da inútil tarefa de traduzir-me.
Gosto de produzir-me, clima frio.
Nem tanto pelo frio,
Por poder vestir o velho moletom
Em que minhas gatas gostam tanto de se enrodilhar,
E pelo vinho:
Vinho-bebida, hormônio que deveríamos produzir naturalmente;
Vinho-cor, a pigmentar meus dentes
Num sorriso de desprezo bordô pela estética do belo
E mais até por mim mesmo
Que um dia a pretendi.
E gosto,
Sobretudo e cada vez mais,
De assistir a videobiografias
Dos meus ídolos mortos ou caídos.
Andar por quilômetros aprazíveis,
Só andar, só as pernas a funcionarem.
Gosto de produzir-me, pensamento.
Estático, olhos vidrados,
Reescrevendo-me em língua morta
Ao invés da inútil tarefa de traduzir-me.
Gosto de produzir-me, clima frio.
Nem tanto pelo frio,
Por poder vestir o velho moletom
Em que minhas gatas gostam tanto de se enrodilhar,
E pelo vinho:
Vinho-bebida, hormônio que deveríamos produzir naturalmente;
Vinho-cor, a pigmentar meus dentes
Num sorriso de desprezo bordô pela estética do belo
E mais até por mim mesmo
Que um dia a pretendi.
E gosto,
Sobretudo e cada vez mais,
De assistir a videobiografias
Dos meus ídolos mortos ou caídos.
Se Lembram De Quando Era Só Brincadeira ?
SOLDADOS
(Renato Russo/Marcelo Bonfá)
Nossas meninas estão longe daqui
Não temos com quem chorar e nem pra onde ir
Se lembra quando era só brincadeira
Fingir ser soldado a tarde inteira?
Mas agora a coragem que temos no coração
Parece medo da morte mas não era então
Tenho medo de lhe dizer o que eu quero tanto
Tenho medo e eu sei porquê:
Estamos esperando.
Quem é o inimigo?
Quem é você?
Nos defendemos tanto tanto sem saber
Porque lutar.
Não temos com quem chorar e nem pra onde ir
Se lembra quando era só brincadeira
Fingir ser soldado a tarde inteira?
Mas agora a coragem que temos no coração
Parece medo da morte mas não era então
Tenho medo de lhe dizer o que eu quero tanto
Tenho medo e eu sei porquê:
Estamos esperando.
Quem é o inimigo?
Quem é você?
Nos defendemos tanto tanto sem saber
Porque lutar.
Nossas meninas estão longe daqui
E de repente eu vi você cair
Não sei armar o que eu senti
Não sei dizer que vi você ali.
Quem vai saber o que você sentiu?
Quem vai saber o que você pensou?
Quem vai dizer agora o que eu não fiz?
Como explicar pra você o que eu quis
Somos soldadosE de repente eu vi você cair
Não sei armar o que eu senti
Não sei dizer que vi você ali.
Quem vai saber o que você sentiu?
Quem vai saber o que você pensou?
Quem vai dizer agora o que eu não fiz?
Como explicar pra você o que eu quis
Pedindo esmola
E a gente não queria lutar.
domingo, 11 de abril de 2010
O Funeral da Rô Rô
Alguns cantores, eu escuto exaustivamente durante certas fases e depois os largo meio de lado. Não os esqueço nem desgosto deles, apenas deixo de visitá-los. Em um belo dia, de repente, do nada, volta a vontade de ouví-los.
Dia desses, isso se deu com a Ângela Rô Rô, a intérprete da birita, a crooner da porralouquice, a cantora dos excessos, a "Escândalo". Tenho vasto material dela, da década de 80, mas me deu vontade de conhecer os trabalhos mais recentes, os que vieram depois dela quase empacotar, bater as botas, justamente por conta dos excessos, álcool, comida, gordura, cigarro; há uns 10 anos, creio eu.
Quis saber se a Ângela Rô Rô, além da Ângela Maria Diniz Gonçalves, havia também sobrevivido ao peripaque.
Não sobreviveu.
"Emprestei" da net alguns trabalhos novos dela e os ouvi. A música ainda está lá, intacta, talvez até melhor. A letra, não! As novas letras se pretendem luminosas e otimistas, quando o diferencial da Rô Rô sempre foram os sentimentos em crepúsculo, enfumaçados, conturbados, toldados pelo álcool, destroçados pela rebordosa do dia seguinte.
Em uma das letras, ela chega a ser herética ao cantar: "... bebendo água pra lubrificar"; em outra, comemora (mas sinceramente sem me convencer) que agora não mais fuma nem bebe, que come pouco e sem sal (puta merda) e que acorda às 6 da manhã e pedala por uma hora.
Tudo bem que a Rô Rô tenha morrido e restado só a Ângela Maria Diniz Gonçalves, isso acontece, mas manter o nome da Rô Rô na capa do disco e dizer que adora água, que água é mais prazerosa que o goró, já é desrespeito à memória do morto, é manchar a reputação de quem se foi.
Tiveram melhor sorte, a exemplos, Raul Seixas, Renato Russo e Cazuza, almas cujos excessos mataram também os seus corpos-continentes, Raul Santos Seixas, Renato Manfredini Junior e Agenor de Miranda Araújo Neto, respectivamente. Sorte dos que morte total sofreram, os que morreram de corpo e alma, os que foram um só defunto o criador e a criatura.
Rô Rô não teve essa sorte, morreu-lhe a alma e ficou um corpo a conspurcá-la, a difamá-la. Um zumbi.
Diante disso, fiz o que podia fazer: apaguei os arquivos emprestados da net, coloquei um vinil da Rô Rô no toca-discos e entornei uma garrafa de vinho, uma só - também ando mais contido.
Não fiquei de ressaca no dia seguinte. Nem vomitei, mas houvesse e teria sido meu punhado de terra lançado sobre o caixão da Rô Rô, minha coroa de flores, meu funeral tardio.
Dia desses, isso se deu com a Ângela Rô Rô, a intérprete da birita, a crooner da porralouquice, a cantora dos excessos, a "Escândalo". Tenho vasto material dela, da década de 80, mas me deu vontade de conhecer os trabalhos mais recentes, os que vieram depois dela quase empacotar, bater as botas, justamente por conta dos excessos, álcool, comida, gordura, cigarro; há uns 10 anos, creio eu.
Quis saber se a Ângela Rô Rô, além da Ângela Maria Diniz Gonçalves, havia também sobrevivido ao peripaque.
Não sobreviveu.
"Emprestei" da net alguns trabalhos novos dela e os ouvi. A música ainda está lá, intacta, talvez até melhor. A letra, não! As novas letras se pretendem luminosas e otimistas, quando o diferencial da Rô Rô sempre foram os sentimentos em crepúsculo, enfumaçados, conturbados, toldados pelo álcool, destroçados pela rebordosa do dia seguinte.
Em uma das letras, ela chega a ser herética ao cantar: "... bebendo água pra lubrificar"; em outra, comemora (mas sinceramente sem me convencer) que agora não mais fuma nem bebe, que come pouco e sem sal (puta merda) e que acorda às 6 da manhã e pedala por uma hora.
Tudo bem que a Rô Rô tenha morrido e restado só a Ângela Maria Diniz Gonçalves, isso acontece, mas manter o nome da Rô Rô na capa do disco e dizer que adora água, que água é mais prazerosa que o goró, já é desrespeito à memória do morto, é manchar a reputação de quem se foi.
Tiveram melhor sorte, a exemplos, Raul Seixas, Renato Russo e Cazuza, almas cujos excessos mataram também os seus corpos-continentes, Raul Santos Seixas, Renato Manfredini Junior e Agenor de Miranda Araújo Neto, respectivamente. Sorte dos que morte total sofreram, os que morreram de corpo e alma, os que foram um só defunto o criador e a criatura.
Rô Rô não teve essa sorte, morreu-lhe a alma e ficou um corpo a conspurcá-la, a difamá-la. Um zumbi.
Diante disso, fiz o que podia fazer: apaguei os arquivos emprestados da net, coloquei um vinil da Rô Rô no toca-discos e entornei uma garrafa de vinho, uma só - também ando mais contido.
Não fiquei de ressaca no dia seguinte. Nem vomitei, mas houvesse e teria sido meu punhado de terra lançado sobre o caixão da Rô Rô, minha coroa de flores, meu funeral tardio.
sábado, 10 de abril de 2010
Os Libertos Do Viaduto
Todas as manhãs, eu passo por sob um viaduto cujo "teto" serve de local de dormida para umas tantas pessoas. Acostumado que já estou, nenhuma reação mais me causam. Aos que passam por ali não tão amiúde, elas não são indiferentes. Olham a essas pessoas dormindo sob o concreto com pena, com medo, com nojo, indignação e até repulsa, alguns, como se elas estivessem ali a sujar e atravancar o caminho por onde passam.
Acredito que, independente da reação gerada em cada um, todo o passante deve pensar em como aquelas pessoas conseguem viver daquela maneira. Sem casa, sem segurança, sem eletricidade, sem água encanada, sem geladeira, fogão e etc.
Mas não creio que esses moradores de rua, pelo menos a maioria, estejam interessados em uma casa com todo o conforto moderno. Muito menos em todas as obrigações e responsabilidades para manter tal conforto. De mais a mais, eles têm lá seus papelões, suas espumas, seus cobertores sapeca-negrinho, suas pingas. E de mais, não precisam.
Não sei se eles sentem falta de um banho quente ou de roupas de cama limpa. Mas, certamente, não sentem falta de pagar aluguel, condomínio, conta de água, conta de luz, IPTU, declarar imposto de renda, cumprir horários, ter patrão, ter hora pra dormir, pra acordar, pra beber, pra cagar, pra trepar, em renovar CPF, em atualizar título de eleitor, em enfrentar filas de banco, supermercados, em cumprir convenções sociais, em demonstrar pudores.
Tenho certeza de que não sentem falta de não serem livres. Essas pessoas são as únicas verdadeiramente livres, como são os outros bichos além do bicho humano, e por isso causam em quem as vê um misto de sensações contraditórias.
Elas não chocam por sua sujeira, mau-cheiro e feiura, que todos estamos acostumados a isso. Elas escandalizam por sua total e plena liberdade.
Não estamos acostumados a ser confrontados com tanta liberdade, uma liberdade que, para nós, chega a ser imoral. Ressentimo-nos da liberdade dessas pessoas, por isso a depreciamos.
Ofende-nos tanta liberdade assim, crua, rude, primal, não depilada, cheirando a humano, de pernas arreganhadas. Esfregada em nossas ventas.
Acredito que, independente da reação gerada em cada um, todo o passante deve pensar em como aquelas pessoas conseguem viver daquela maneira. Sem casa, sem segurança, sem eletricidade, sem água encanada, sem geladeira, fogão e etc.
Mas não creio que esses moradores de rua, pelo menos a maioria, estejam interessados em uma casa com todo o conforto moderno. Muito menos em todas as obrigações e responsabilidades para manter tal conforto. De mais a mais, eles têm lá seus papelões, suas espumas, seus cobertores sapeca-negrinho, suas pingas. E de mais, não precisam.
Não sei se eles sentem falta de um banho quente ou de roupas de cama limpa. Mas, certamente, não sentem falta de pagar aluguel, condomínio, conta de água, conta de luz, IPTU, declarar imposto de renda, cumprir horários, ter patrão, ter hora pra dormir, pra acordar, pra beber, pra cagar, pra trepar, em renovar CPF, em atualizar título de eleitor, em enfrentar filas de banco, supermercados, em cumprir convenções sociais, em demonstrar pudores.
Tenho certeza de que não sentem falta de não serem livres. Essas pessoas são as únicas verdadeiramente livres, como são os outros bichos além do bicho humano, e por isso causam em quem as vê um misto de sensações contraditórias.
Elas não chocam por sua sujeira, mau-cheiro e feiura, que todos estamos acostumados a isso. Elas escandalizam por sua total e plena liberdade.
Não estamos acostumados a ser confrontados com tanta liberdade, uma liberdade que, para nós, chega a ser imoral. Ressentimo-nos da liberdade dessas pessoas, por isso a depreciamos.
Ofende-nos tanta liberdade assim, crua, rude, primal, não depilada, cheirando a humano, de pernas arreganhadas. Esfregada em nossas ventas.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Ganharam O Que A Luzia Ganhou Atrás Da Horta
Ontem, em mais uma manifestação na Av. Paulista, o sindicato dos professores do estado de SP, a APEOESP, decidiu dar por encerrada a greve iniciada em 08/03.
Pergunta: o que os professores ganharam com essa greve? O de sempre: o que a Luzia ganhou atrás da horta. Mas, com certeza, ajudaram os sindicalistas do alto escalão a ganharem umas benesses do governo, uns carguinhos de confiança.
Parece que alguns professores, inconformados com a decisão de cessar a greve, jogaram ovos na presidente da APEOESP. Bando de babacas. Deveriam era jogar ovos em si mesmos, pela burrice de ir atrás do sindicato mais uma vez. Agora voltam para as suas salas de aula com os rabinhos no meio das pernas, mais desmoralizados do que quando saíram, se é que isso é possível.
Acontece que professor serve para isso mesmo - ser bucha de canhão.
Pergunta: o que os professores ganharam com essa greve? O de sempre: o que a Luzia ganhou atrás da horta. Mas, com certeza, ajudaram os sindicalistas do alto escalão a ganharem umas benesses do governo, uns carguinhos de confiança.
Parece que alguns professores, inconformados com a decisão de cessar a greve, jogaram ovos na presidente da APEOESP. Bando de babacas. Deveriam era jogar ovos em si mesmos, pela burrice de ir atrás do sindicato mais uma vez. Agora voltam para as suas salas de aula com os rabinhos no meio das pernas, mais desmoralizados do que quando saíram, se é que isso é possível.
Acontece que professor serve para isso mesmo - ser bucha de canhão.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Falta de Ar
Ao escrever - alguém já disse -, o escritor está, na verdade, reescrevendo-se. Não concordo.
Não há como nem razão para nos reescrevermos, para nos passarmos a limpo. Somos rascunhos incorrigíveis, somos um aglomerado de rasuras que ganhou vida um dia, subitamente. Passarmo-nos a limpo seria entrar voluntariamente numa câmara de desintegração e deixar a sogra a tomar conta do botão de acionamento.
Também não concordo que a escrita sirva para autoconhecimento de quem a grafa, que seja uma lanterna a guiar por uma redentora rota de fuga das profundezas, até porque quem escreve alguma coisa que preste quer mais é continuar nas profundezas, não quer muita coisa com a superfície e suas superficialidades.
Antes pelo contrário: escrevo para poder continuar nas profundezas, escrevo para conseguir reabastecer meus cilindros de oxigênio, para não ter de pôr o nariz à tona. Cada vez que escrevo algo de que gosto, respiro mais anchamente, inspiro, perdulário, o oxigênio, sinto meus cilindros se intumescerem de atmosfera alpina.
É isso, a propósito, o que estou tentando obter agora, um novo suprimento de ar, pois acabei de olhar para o manômetro de meus cilindros e seu ponteiro já está se engraçando com a faixa vermelha do mostrador, arauta do pouco ar.
Mas, hoje, não sei, não...
Acho que terei de dar as fuças à luz. Para um breve respiro de cachalote.
Não há como nem razão para nos reescrevermos, para nos passarmos a limpo. Somos rascunhos incorrigíveis, somos um aglomerado de rasuras que ganhou vida um dia, subitamente. Passarmo-nos a limpo seria entrar voluntariamente numa câmara de desintegração e deixar a sogra a tomar conta do botão de acionamento.
Também não concordo que a escrita sirva para autoconhecimento de quem a grafa, que seja uma lanterna a guiar por uma redentora rota de fuga das profundezas, até porque quem escreve alguma coisa que preste quer mais é continuar nas profundezas, não quer muita coisa com a superfície e suas superficialidades.
Antes pelo contrário: escrevo para poder continuar nas profundezas, escrevo para conseguir reabastecer meus cilindros de oxigênio, para não ter de pôr o nariz à tona. Cada vez que escrevo algo de que gosto, respiro mais anchamente, inspiro, perdulário, o oxigênio, sinto meus cilindros se intumescerem de atmosfera alpina.
É isso, a propósito, o que estou tentando obter agora, um novo suprimento de ar, pois acabei de olhar para o manômetro de meus cilindros e seu ponteiro já está se engraçando com a faixa vermelha do mostrador, arauta do pouco ar.
Mas, hoje, não sei, não...
Acho que terei de dar as fuças à luz. Para um breve respiro de cachalote.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
O Nome Dela é Waldemar
Agora é lei. Um decreto publicado no Diário Oficial do Estado de São Paulo, em 18/03/2010, garante o direito aos transgêneros de serem chamados, em qualquer repartição pública, pelo nome através do qual se reconhecem, o chamado nome social.
Transgêneros são os travestis, transexuais e afins. Não confundir, por favor, com transgênicos, que são coisa séria.
Resumindo, a partir da supracitada data, todo transgênero deverá ser chamado, se ele assim o desejar, em qualquer repartição pública, pelo seu "nome de guerra". Vai que, por exemplo, o cara se chame José Roberto de Oliveira e se reconheça pelo nome social de "a borboletinha dos coqueirais", será assim que ele deverá ser mencionado em hospitais públicos, em fóruns de justiça, em escolas estaduais e etc.
Fico imaginando se isso também será válido para as circunscrições do serviço militar. O sargento adentra a sala dos alistados, com toda austeridade própria à sua patente, e começa a chamada para a inspeção : fulano de tal, siclano das tantas, beltrano da silva e, de repente, Samanta do Rego de Veludo, Michele Linguinha Ligeira, e por aí vai...
E quem se recusar em usar o nome de guerra do indivíduo será taxado de homofóbico, termo cujo emprego, aliás, é equivocado nesses casos. Fobia é medo. Eu não tenho medo de homossexuais ou transgêneros nem aversão a eles, só não tenho afinidades, só não tenho assunto, só não dá pra entabular uma prosa muito longa com eles.
Se alguém estiver duvidando de tal surrealismo, basta consultar o Diário Oficial de SP do dia 18/03/2010.
É como diz o outro: antigamente, homossexualismo era crime no Brasil, depois passou a ser tolerado, hoje é exaltado como conquista social... o negócio é mudarmos daqui antes que passe a ser obrigatório.
E é isso.
O que mais há para se dizer?
Transgêneros são os travestis, transexuais e afins. Não confundir, por favor, com transgênicos, que são coisa séria.
Resumindo, a partir da supracitada data, todo transgênero deverá ser chamado, se ele assim o desejar, em qualquer repartição pública, pelo seu "nome de guerra". Vai que, por exemplo, o cara se chame José Roberto de Oliveira e se reconheça pelo nome social de "a borboletinha dos coqueirais", será assim que ele deverá ser mencionado em hospitais públicos, em fóruns de justiça, em escolas estaduais e etc.
Fico imaginando se isso também será válido para as circunscrições do serviço militar. O sargento adentra a sala dos alistados, com toda austeridade própria à sua patente, e começa a chamada para a inspeção : fulano de tal, siclano das tantas, beltrano da silva e, de repente, Samanta do Rego de Veludo, Michele Linguinha Ligeira, e por aí vai...
E quem se recusar em usar o nome de guerra do indivíduo será taxado de homofóbico, termo cujo emprego, aliás, é equivocado nesses casos. Fobia é medo. Eu não tenho medo de homossexuais ou transgêneros nem aversão a eles, só não tenho afinidades, só não tenho assunto, só não dá pra entabular uma prosa muito longa com eles.
Se alguém estiver duvidando de tal surrealismo, basta consultar o Diário Oficial de SP do dia 18/03/2010.
É como diz o outro: antigamente, homossexualismo era crime no Brasil, depois passou a ser tolerado, hoje é exaltado como conquista social... o negócio é mudarmos daqui antes que passe a ser obrigatório.
E é isso.
O que mais há para se dizer?
sábado, 3 de abril de 2010
sexta-feira, 2 de abril de 2010
De Quando Eu Gostava de Heróis
Li quadrinhos de super-heróis por cerca de uns 20 anos, contínua e assiduamente, dos meus 12 anos aos meus 34, 35 anos. Então os heróis foram sendo modificados, modernizados, e eu desgostei deles. Se bem que é provável que eu acabasse desgostando de qualquer jeito, mais cedo ou mais tarde, coisas de velho. Velho tem disso, vai desgostando das coisas.Quando eu ainda gostava de heróis, o meu preferido era o Capitão América, uma figura que sempre me fascinou. E não por conta de seus poderes extraordinários, que poderes extraordinários, ele não tinha nenhum. Claro que o cara tinha força e habilidades acrobáticas e marciais bem acima da média. Nada sobre-humano, contudo. Nada que um atleta nascido com um certo favorecimento genético e com férreas dedicação e disciplina não pudesse alcançar.
Apesar disso, curiosamente, ele sempre era o líder quando a coisa ficava preta demais para só um herói resolver e os Vingadores eram convocados e reunidos. O Capitão comandava, então, seres muitíssimo mais poderosos que ele : o Homem de Ferro (um tanque de guerra ambulante), o Visão (um sintozoide com controle da densidade corpórea), o gigante Golias (de força proporcional aos seus 12 metros de altura), os mutantes Mercúrio (um velocista capaz de quase quebrar a barreira do som) e Feiticeira Escarlate (com habilidade de alterar o campo das probalidades e realizar eventos virtualmente impossíveis, o que grosseiramente chamamos de bruxaria) e até um deus, Thor, o do Trovão, o Capitão tinha ao seu dispor; e esse deus com frequência se dizia honrado em atuar sob o comando do Capitão.
O fato desses seres superpoderosos obedecerem e seguirem cegamente ao Capitão me instigava à época.
Hoje, a razão dessa subordinação a um ser aparentemente inferior é clara. O verdadeiro superpoder do Capitão América era muito mais raro do que raios repulsores, martelos encantados, bruxarias ou força titânica. O verdadeiro superpoder do Capitão era a sua retidão de caráter e conduta, suas inabaláveis e incorruptíveis moral e ética, sua lisura de princípios. O Capitão dava credibilidade àquele grupo de - no fim das contas - desajustados.
Algumas situações eram recorrentes. Quando a casa estava para cair, quando os "mocinhos" estavam prestes a serem derrotados, no meio de todo o caos comum aos cenários de batalha, o Capitão surgia. Por entre os batentes de uma porta ou no alto de um prédio. Não fazia nem falava nada.
Apenas surgia.
E nunca vinha sozinho, a luz sempre o acompanhava (até a luz), sempre havia uma alvorada às suas costas. E o tempo parava por segundos, todos - mocinhos e bandidos - estacavam aparvalhados à visão do Capitão e seu escudo, todos "cagavam nas calças", nas palavras de um amigo meu. E esses poucos segundos eram os necessários e suficientes para os mocinhos virarem o jogo.
E daí que o cara veste o lábaro estadunidense? E daí que o cara vista uma bandeira? Todos não temos que vestir uma?
Talvez por isso eu gostasse tanto do Capitão. Ele não era o mais forte ou o mais rápido, ele era o mais probo e confiável, era o CDF dos super-heróis, o caxias. Eu não podia voar, lançar raios e nem era superforte, mas CDF eu podia ser.
E acho até que me dediquei em desenvolver a honorabilidade do Capitão durante algum tempo, por alguns e longos anos. Ser também um baluarte da integridade e da decência.
Eu deveria ter mais me dedicado em desenvolver uma fórmula que me conferisse poder de voo, superforça e invulnerabilidade. Ou peregrinar até um mosteiro no Tibet onde um monge me revelaria os segredos da invisibilidade, telepatia e telecinese. Ou me deixar picar por uma aranha ou qualquer outro inseto radiativo.
Em qualquer uma dessas improváveis empreitas, minhas chances teriam sido maiores.
quarta-feira, 31 de março de 2010
Caio Fernando Abreu
As coisas sempre prestes a serem apanhadas.E você eternamente prestes a apanhá-las.Como uma sina.Sempre prestes.
terça-feira, 30 de março de 2010
"Novas" Tecnologias
Todo dito popular é burro, e aquele que afirma ser "a necessidade a mãe de toda invenção" não foge à regra. A necessidade não é mãe da invenção porra nenhuma. É bem o contrário, a invenção é a mãe de toda necessidade.
Entra dia, sai dia e somos bombardeados com novas invenções, novas parafernálias que imediatamente se tornam indispensáveis à nossa vida e ao nosso bem-estar. Parafernálias que nem sonhávamos que pudessem existir ou mesmo que pudessem ser inventadas há 20, 15 ou 10 anos, e por cuja falta ninguém nunca morreu ou deixou de bem viver. Celulares, tvs de plasma, gps, blue-ray (seja lá o que for isso), bluetoth (idem) e até mesmo - e por que não? - o já parte da família, controle remoto. Quem morreu ou teve impedimentos para ser feliz na época em que essas engenhocas não existiam? Hoje, quem é mais feliz por conta delas?
Mas isso nem é o pior. O pior é quando pegam um produto que já existe há tempos, em forma simples, barata e altamente funcional, e o travestem de novidade, mudam-lhe o nome (para o inglês, de preferência), põem-lhe uma roupa futurista, enchem-no de botões e lampadinhas e sobretudo - esse é o objetivo - duplicam, triplicam, decuplicam seu preço.
É o caso dos purificadores de água.
Na semana passada, foi comemorado o Dia Mundial da Água. Bom, eu gosto de água, gosto muito de água, sou 65% água, mas quero que o Dia da Água se foda e tenho certeza de que cada manancialzinho de água do planeta tem a mesma opinião.
Acontece que em tal dia, os jornais saíram com suas páginas tingidas de azul-água (água não é incolor?), cheios daquela lenga-lenga de preservação e com suplementos especiais a respeito da data.
Em um desses cadernos comemorativos, havia um quadro comparativo entre as principais marcas de purificadores de água do mercado, onde se confrontavam os atributos de cada modelo. Estavam postos lado a lado, o sistema de filtragem de cada um, a eficácia em eliminar os diversos tipos de contaminantes e os respectivos preços.
O mais simples era munido de uma membrana de ultrafiltragem e de carvão ativado acondicionado em tubo de polipropileno revestido de prata coloidal. E a sandice seguia, o segundo era equipado com membrana de filtro oca com 40 bilhões de microporos, o seguinte irradiava luz ultravioleta (purifica e bronzeia ao mesmo tempo, o filho da puta), o próximo injetava ozônio na água e assegurava, além da desinfecção, um aumento na produção de interferon e interleucina pelo organismo (vai ver que o ozônio desse é para proteger do ultravioleta do anterior, compre o purificador e ganhe sua camada de ozônio particular), o último deles, diziam as especificações, e confesso que esse me assustou, unia os sistemas SNTA, HF e UVLS. Puta que o pariu, esse deve ser capaz de matar a própria molécula de água.
Os preços partiam de um minímo de 180 reais e superavam os 400 reais. A eficiência assegurada era a mesma em todos os casos, 99% para micro-organismos e impurezas sólidas e um pouco menos - 97, 98% - para cloro, pesticidas e metais pesados.
Fiquei apavorado. Se para obter uma água limpa, eu precisava de, no minímo, um tubo de polipropileno com carvão ativado e prata coloidal, eu estava fodido, verdadeiramente fodido. Afinal, eu uso, e sempre usei, o bom e velho filtro de barro.
Cheguei em casa e corri à net, pesquisar a eficiência do meu modesto e nada tecnológico filtro de barro. Pois bem, pasmem ou não, o filtro de barro demonstra uma eficiência de 99%em remover micro-organismos e resíduos sólidos e de 95 a 98% em eliminar cloro, pesticidas e metais pesados. Ou seja: exatamente a mesma coisa.
O filtro de barro é simples, grosseiro, rústico, porém altamente eficiente. Assim como eu.
Achei, inclusive, um site inglês - cuja tradução do nome seria "coisas simples que funcionam" - que lista artefatos do mundo inteiro que atendem a esses requisitos, simplicidade e funcionalidade. E não é que o brasileiro filtro de barro está lá?
Além de similar eficiência, existem inúmeras outras vantagens no filtro de barro, a começar do preço, algo em torno de 40 reais contra os 200 ou 300 das pratas coloidais importadas, ao comprar o filtro de barro, você não enche os bolsos das multinacionais.
A durabilidade também é superior, podendo atingir décadas de bom uso; quando jogado fora, por ser barro, é degradado e reabsorvido rapidamente pelo ambiente; a água dentro dele é sempre mais fresca, pois permite a evaporação das moléculas com maior energia através de suas paredes porosas; algumas argilas têm propriedades medicinais e são capazes de transmitir vibrações eletromagnéticas para a água e consequentemente para quem a consome; os minerais do barro que são percolados pela água também são de valia para as funções hepáticas e renais.
Tem mais : o filtro de barro não tem luzinhas multicoloridas e piscantes, não parece um painel de avião de tantos botões, não tem caninho entrando aqui e tubinho saindo acolá, não dá problema na rebimboca da parafuseta e qualquer um pode "instalar" e dar a adequada manutenção, ou seja, o filtro de barro, além de tudo, é isento de frescuras e viadagens, é o purificador do macho por excelência!
O filtro de barro tem o charme e a sedução das coisas artesanais, é classudo, é um clássico, é cult.
Assim como eu.
Entra dia, sai dia e somos bombardeados com novas invenções, novas parafernálias que imediatamente se tornam indispensáveis à nossa vida e ao nosso bem-estar. Parafernálias que nem sonhávamos que pudessem existir ou mesmo que pudessem ser inventadas há 20, 15 ou 10 anos, e por cuja falta ninguém nunca morreu ou deixou de bem viver. Celulares, tvs de plasma, gps, blue-ray (seja lá o que for isso), bluetoth (idem) e até mesmo - e por que não? - o já parte da família, controle remoto. Quem morreu ou teve impedimentos para ser feliz na época em que essas engenhocas não existiam? Hoje, quem é mais feliz por conta delas?
Mas isso nem é o pior. O pior é quando pegam um produto que já existe há tempos, em forma simples, barata e altamente funcional, e o travestem de novidade, mudam-lhe o nome (para o inglês, de preferência), põem-lhe uma roupa futurista, enchem-no de botões e lampadinhas e sobretudo - esse é o objetivo - duplicam, triplicam, decuplicam seu preço.
É o caso dos purificadores de água.
Na semana passada, foi comemorado o Dia Mundial da Água. Bom, eu gosto de água, gosto muito de água, sou 65% água, mas quero que o Dia da Água se foda e tenho certeza de que cada manancialzinho de água do planeta tem a mesma opinião.
Acontece que em tal dia, os jornais saíram com suas páginas tingidas de azul-água (água não é incolor?), cheios daquela lenga-lenga de preservação e com suplementos especiais a respeito da data.
Em um desses cadernos comemorativos, havia um quadro comparativo entre as principais marcas de purificadores de água do mercado, onde se confrontavam os atributos de cada modelo. Estavam postos lado a lado, o sistema de filtragem de cada um, a eficácia em eliminar os diversos tipos de contaminantes e os respectivos preços.
O mais simples era munido de uma membrana de ultrafiltragem e de carvão ativado acondicionado em tubo de polipropileno revestido de prata coloidal. E a sandice seguia, o segundo era equipado com membrana de filtro oca com 40 bilhões de microporos, o seguinte irradiava luz ultravioleta (purifica e bronzeia ao mesmo tempo, o filho da puta), o próximo injetava ozônio na água e assegurava, além da desinfecção, um aumento na produção de interferon e interleucina pelo organismo (vai ver que o ozônio desse é para proteger do ultravioleta do anterior, compre o purificador e ganhe sua camada de ozônio particular), o último deles, diziam as especificações, e confesso que esse me assustou, unia os sistemas SNTA, HF e UVLS. Puta que o pariu, esse deve ser capaz de matar a própria molécula de água.
Os preços partiam de um minímo de 180 reais e superavam os 400 reais. A eficiência assegurada era a mesma em todos os casos, 99% para micro-organismos e impurezas sólidas e um pouco menos - 97, 98% - para cloro, pesticidas e metais pesados.
Fiquei apavorado. Se para obter uma água limpa, eu precisava de, no minímo, um tubo de polipropileno com carvão ativado e prata coloidal, eu estava fodido, verdadeiramente fodido. Afinal, eu uso, e sempre usei, o bom e velho filtro de barro.
Cheguei em casa e corri à net, pesquisar a eficiência do meu modesto e nada tecnológico filtro de barro. Pois bem, pasmem ou não, o filtro de barro demonstra uma eficiência de 99%em remover micro-organismos e resíduos sólidos e de 95 a 98% em eliminar cloro, pesticidas e metais pesados. Ou seja: exatamente a mesma coisa.
O filtro de barro é simples, grosseiro, rústico, porém altamente eficiente. Assim como eu.
Achei, inclusive, um site inglês - cuja tradução do nome seria "coisas simples que funcionam" - que lista artefatos do mundo inteiro que atendem a esses requisitos, simplicidade e funcionalidade. E não é que o brasileiro filtro de barro está lá?
Além de similar eficiência, existem inúmeras outras vantagens no filtro de barro, a começar do preço, algo em torno de 40 reais contra os 200 ou 300 das pratas coloidais importadas, ao comprar o filtro de barro, você não enche os bolsos das multinacionais.
A durabilidade também é superior, podendo atingir décadas de bom uso; quando jogado fora, por ser barro, é degradado e reabsorvido rapidamente pelo ambiente; a água dentro dele é sempre mais fresca, pois permite a evaporação das moléculas com maior energia através de suas paredes porosas; algumas argilas têm propriedades medicinais e são capazes de transmitir vibrações eletromagnéticas para a água e consequentemente para quem a consome; os minerais do barro que são percolados pela água também são de valia para as funções hepáticas e renais.
Tem mais : o filtro de barro não tem luzinhas multicoloridas e piscantes, não parece um painel de avião de tantos botões, não tem caninho entrando aqui e tubinho saindo acolá, não dá problema na rebimboca da parafuseta e qualquer um pode "instalar" e dar a adequada manutenção, ou seja, o filtro de barro, além de tudo, é isento de frescuras e viadagens, é o purificador do macho por excelência!
O filtro de barro tem o charme e a sedução das coisas artesanais, é classudo, é um clássico, é cult.
Assim como eu.
sábado, 27 de março de 2010
O Pau Comeu Na Casa de Noca
Agora sim!
Até que enfim a paralisação dos professores do estado de SP ganhou fuças de greve.
Ontem, 26/03/10, a polícia desceu o sarrafo na professorada, o embate aconteceu com a barreira policial montada para impedir o acesso dos grevistas ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.
Confesso a minha decepção com o resultado da contenda, 9 professores feridos contra 7 policiais idem.
E o governador Serra já disse que não negocia enquanto a greve se mantiver, que não fala com grevista. O Serra está certo, eu também faria o mesmo.
Grevista é um porre, sempre a mesma coisa, sempre aquelas faixas de abaixo isso, abaixo aquilo, abaixo aquiloutro, sempre carregando caixões de defunto a simbolizar a morte da educação. E o discurso de grevista? Quem aguenta aquele discursinho marxista-leninista-trotskista? E o visual a la Che? Sempre aquela barbinha rala, boina com estrelinha do PT e a indefectível lingua presa. O Serra está certo, eu também não receberia grevistas.
Voltando ao placar de Polícia 9 x Professores 7 - praticamente um empate técnico -, deixo aqui para o governador uma sugestão.
Demita os policiais feridos, afinal os caras são preparados para espancar grevistas e paramentados para tal, capacetes, escudões, cassetetes, balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio, com tudo isso em mãos, o cara tem que ser muito incompetente para se deixar alvejar por pedras de professor. Eu, com um escudão daqueles, fico inatingível. Viro o próprio Capitão América.
Demita os policiais feridos e contrate os professores que os feriram para ocuparem os seus postos. Mata-se, assim, dois coelhos com única cajadada, esses professores serão, muito provavelmente, mais hábeis com os cassetetes do que são com o giz e terão atendidas as suas reivindicações salariais, afinal, policial ganha bem melhor que professor nesse país.
Até que enfim a paralisação dos professores do estado de SP ganhou fuças de greve.
Ontem, 26/03/10, a polícia desceu o sarrafo na professorada, o embate aconteceu com a barreira policial montada para impedir o acesso dos grevistas ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.
Confesso a minha decepção com o resultado da contenda, 9 professores feridos contra 7 policiais idem.
E o governador Serra já disse que não negocia enquanto a greve se mantiver, que não fala com grevista. O Serra está certo, eu também faria o mesmo.
Grevista é um porre, sempre a mesma coisa, sempre aquelas faixas de abaixo isso, abaixo aquilo, abaixo aquiloutro, sempre carregando caixões de defunto a simbolizar a morte da educação. E o discurso de grevista? Quem aguenta aquele discursinho marxista-leninista-trotskista? E o visual a la Che? Sempre aquela barbinha rala, boina com estrelinha do PT e a indefectível lingua presa. O Serra está certo, eu também não receberia grevistas.
Voltando ao placar de Polícia 9 x Professores 7 - praticamente um empate técnico -, deixo aqui para o governador uma sugestão.
Demita os policiais feridos, afinal os caras são preparados para espancar grevistas e paramentados para tal, capacetes, escudões, cassetetes, balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio, com tudo isso em mãos, o cara tem que ser muito incompetente para se deixar alvejar por pedras de professor. Eu, com um escudão daqueles, fico inatingível. Viro o próprio Capitão América.
Demita os policiais feridos e contrate os professores que os feriram para ocuparem os seus postos. Mata-se, assim, dois coelhos com única cajadada, esses professores serão, muito provavelmente, mais hábeis com os cassetetes do que são com o giz e terão atendidas as suas reivindicações salariais, afinal, policial ganha bem melhor que professor nesse país.
quinta-feira, 25 de março de 2010
A Era Das Mariposas
Assisto pouco à TV, ainda menos aos telejornais e tento de todas as maneiras não tomar conhecimento de sensacionalismos. Mas volta e meia uma desgraça é eleita pelas mídias e repisada de tal maneira que se torna impossível não se inteirar dela.
É o caso dessa menina, Isabela Nardoni. Pelo que sei, ela foi jogada da janela de um apartamento (6º andar, é isso?) e os indícios apontam pai e madrasta como os autores.
É triste, terrivelmente triste. Estamos, porém, entre humanos e entre humanos essas coisas acontecem. Mais que o crime, causaram-me espanto (vi sem querer) as declarações da avó da menina aos jornalistas.
Essa senhora estava, acho eu, dirigindo-se ao local do julgamento quando foi cercada por repórteres e uma multidão a brandir cartazes e faixas clamando por justiça à Isabela, todos desejosos de aparecer no Jornal Nacional.
A avó envergava uns óculos escuros gigantes, parecia uma libélula dark, fazendo supor seu grande pesar, fazendo supor olhos chorosos por detrás. Entretanto o resto do semblante não era concernente à presumida tristeza dos óculos escuros, notava-se (eu notei, será que estou sendo maldoso?) até laivos de sorriso e ao ter os microfones e camêras ao seu dispor, a avó disparou que estava achando lindo aquilo tudo.
Peraí! Puta que o pariu! Ela estava achando lindo o quê? A neta ter sido assassinada? Estava achando lindo, emendou na sequência, o amor daquelas pessoas por sua neta. Que amor, porra? Quem ali conheceu a menina? E, para fechar a entrevista com chave de ouro, a avó levantou o braço para as camêras e exibiu uma tatuagem com o nome da neta no antebraço.
Tanta sandice, tanto descaso, tanto desatino e banalização por um único objetivo : aparecer.
Aparecer é o verbo que melhor representa essa Era em que vivemos. Todos querem ganhar notoriedade, tornar-se uma celebridade instantânea.
A Idade Média foi rotulada de a Idade das Trevas, sucedeu-lhe a Renascença e o Iluminismo, a Idade das Luzes, onde despontaram uns pensadores até que bem legaizinhos.
Vivemos, hoje, a Idade dos Holofotes, todos querem ser iluminados por luzes de 1000 W, todos querem brilhar, todos correm ávidos à procura de holofotes que lhes ilumine a região anatômica conhecida cientificamente como "lá onde o sol não bate". Brilhar é o que todos querem, a qualquer custo.
E esse tesão pelo neon é mais marcante nas mulheres (vide a avó, nem se falou do avô). Claro que existem homens também afeitos aos holofotes, mas são aqueles que se depilam, tiram as sobrancelhas, pintam os cabelos, passam hidratante, tiram cutícula... não dá nem pra chamar muito de homem.
A velha MPB, delicada e eufemisticamente, chama de mariposas a essas mulheres adoradoras dos luares artificiais (a nova MPB, que desconhece inclusive o que seja eufemismo, as chama mais realisticamente de cachorras).
As mariposas estão presentes em várias letras do antigo cancioneiro popular, de Adoniran Barbosa a Nélson Gonçalves.
E, para encerrar, vem de Nélson Gonçalves o recado e o alerta mais significativo para essas pessoas que se deixam deslumbrar pelos holofotes, no trecho da música "Mariposa":
"Segue teu caminho, mariposa,
Já que essa luz te embriaga.
Mas nunca te esqueças, mariposa,
Que toda luz se apaga.
Presta bem atenção, mariposa,
Nesse aviso derradeiro:
Antes que a luz da cidade se apague, pode cegar-te primeiro"
É o caso dessa menina, Isabela Nardoni. Pelo que sei, ela foi jogada da janela de um apartamento (6º andar, é isso?) e os indícios apontam pai e madrasta como os autores.
É triste, terrivelmente triste. Estamos, porém, entre humanos e entre humanos essas coisas acontecem. Mais que o crime, causaram-me espanto (vi sem querer) as declarações da avó da menina aos jornalistas.
Essa senhora estava, acho eu, dirigindo-se ao local do julgamento quando foi cercada por repórteres e uma multidão a brandir cartazes e faixas clamando por justiça à Isabela, todos desejosos de aparecer no Jornal Nacional.
A avó envergava uns óculos escuros gigantes, parecia uma libélula dark, fazendo supor seu grande pesar, fazendo supor olhos chorosos por detrás. Entretanto o resto do semblante não era concernente à presumida tristeza dos óculos escuros, notava-se (eu notei, será que estou sendo maldoso?) até laivos de sorriso e ao ter os microfones e camêras ao seu dispor, a avó disparou que estava achando lindo aquilo tudo.
Peraí! Puta que o pariu! Ela estava achando lindo o quê? A neta ter sido assassinada? Estava achando lindo, emendou na sequência, o amor daquelas pessoas por sua neta. Que amor, porra? Quem ali conheceu a menina? E, para fechar a entrevista com chave de ouro, a avó levantou o braço para as camêras e exibiu uma tatuagem com o nome da neta no antebraço.
Tanta sandice, tanto descaso, tanto desatino e banalização por um único objetivo : aparecer.
Aparecer é o verbo que melhor representa essa Era em que vivemos. Todos querem ganhar notoriedade, tornar-se uma celebridade instantânea.
A Idade Média foi rotulada de a Idade das Trevas, sucedeu-lhe a Renascença e o Iluminismo, a Idade das Luzes, onde despontaram uns pensadores até que bem legaizinhos.
Vivemos, hoje, a Idade dos Holofotes, todos querem ser iluminados por luzes de 1000 W, todos querem brilhar, todos correm ávidos à procura de holofotes que lhes ilumine a região anatômica conhecida cientificamente como "lá onde o sol não bate". Brilhar é o que todos querem, a qualquer custo.
E esse tesão pelo neon é mais marcante nas mulheres (vide a avó, nem se falou do avô). Claro que existem homens também afeitos aos holofotes, mas são aqueles que se depilam, tiram as sobrancelhas, pintam os cabelos, passam hidratante, tiram cutícula... não dá nem pra chamar muito de homem.
A velha MPB, delicada e eufemisticamente, chama de mariposas a essas mulheres adoradoras dos luares artificiais (a nova MPB, que desconhece inclusive o que seja eufemismo, as chama mais realisticamente de cachorras).
As mariposas estão presentes em várias letras do antigo cancioneiro popular, de Adoniran Barbosa a Nélson Gonçalves.
E, para encerrar, vem de Nélson Gonçalves o recado e o alerta mais significativo para essas pessoas que se deixam deslumbrar pelos holofotes, no trecho da música "Mariposa":
"Segue teu caminho, mariposa,
Já que essa luz te embriaga.
Mas nunca te esqueças, mariposa,
Que toda luz se apaga.
Presta bem atenção, mariposa,
Nesse aviso derradeiro:
Antes que a luz da cidade se apague, pode cegar-te primeiro"
terça-feira, 23 de março de 2010
O Humano Nu
Em minha caminhada diária rumo ao trabalho, de uns 4 km aproximadamente, atravesso todo o centro da cidade, inclusive a região chamada de "baixada". Local de prostituição em cujas calçadas, pela manhã raiante, não são incomuns poças de vômito, camisinhas usadas, roupas intímas perdidas e amontoados de merda humana. Normal.
Semana passada, porém, eu a descer pela rua, a um quarteirão, quarteirão e meio de distância, vi uma figura anômala, mesmo para aquela região da cidade. Havia algo em desacordo na figura, alguma coisa fora do lugar e que, até pela distância, eu ainda não havia detectado o que fosse. Mais uns passos e constatei que aquele indivíduo, magro, alto, meio mulato, estava completamente nu. E passava um jornal ou um pedaço de papelão na bunda, como que a se limpar.
Atravessei para o outro lado da rua e continuei a andar, acabada a limpeza da bunda, o cara peladão sentou-se ali mesmo, na calçada, e dobrou-se ao meio, abraçando os joelhos, com a cabeça entre eles. E nem se dava pelos poucos passantes, estava alheio ao mundo, talvez drogado, sei lá.
Ao passar por ele, vi a seu lado o que havia restado de suas roupas, uma bermuda imersa num alagado de bosta. O cara não se aguentou, cagou-se todo e acabou lá, nu. Além de mim, os poucos que por ali passavam também olhavam àquilo com estranheza, piedade, medo, nojo, mas principalmente com incredulidade.
Nem eu nem os outros estávamos acostumados a ver um humano reduzido ao seu estado mais primal, puramente instintivo, sem nenhuma artificialidade.
Tenho cá comigo que todo o esforço do homem em construir seu conhecimento, suas tecnologias, erigir suas civilizações e até seus deuses, tem como objetivo primário, ainda que inconsciente, o de se negar como o animal que é, milênios de desenvolvimento humano destinados a um único intento, disfarçar sua natureza animalesca.
Nós nos depilamos, escovamos os dentes (não gostamos de nossos gostos e hálitos), cortamos nossas unhas, tomamos banho, lançamos mão de sabonetes, xampus, perfumes, cremes e uma infinidade outra de produtos que escondem nossos odores, nosso próprio cheiro nos parece podre, usamos roupas que disfarçam nossas imperfeições. Já pararam para pensar quanta tecnologia e dispêndio de energia há nessas poucos coisas que listei?
Pois bem. O cara nu, peludo, cagado e fedido punha abaixo todo esse esforço para não parecermos animais, demolia toda a empáfia humana em se julgar diferente e melhor. Daí o mal-estar dos que por ele passavam, inclusive o meu.
Contei o ocorrido para uns poucos colegas do trabalho, para aqueles com pontos de vista mais afins aos meus. Depois de feitas as considerações, o nó da questão foi em como um sujeito chega a tal ponto de degradação, o que faz com que uma pessoa fique daquele jeito, totalmente destituída de humanidade?
Destituída de humanidade, isso foi consenso geral entre meus pares.
Não concordo com eles. Fiquei quieto, não prolonguei a discussão, mas não concordo com eles.
O cara pelado, peludo, embosteado e fedorento não estava em nada destituído de sua humanidade.
Pelo contrário, ele estava totalmente revestido de humanidade, a humanidade impregnava e emanava de cada um de seus poros naquele momento, nada havia ali que humano não fosse, nada havia ali de artificial.
O cara nu estava pleno de humanidade. E só dela!
Por isso, a estranheza. Por isso, a repugnância.
A repulsa por isso.
Semana passada, porém, eu a descer pela rua, a um quarteirão, quarteirão e meio de distância, vi uma figura anômala, mesmo para aquela região da cidade. Havia algo em desacordo na figura, alguma coisa fora do lugar e que, até pela distância, eu ainda não havia detectado o que fosse. Mais uns passos e constatei que aquele indivíduo, magro, alto, meio mulato, estava completamente nu. E passava um jornal ou um pedaço de papelão na bunda, como que a se limpar.
Atravessei para o outro lado da rua e continuei a andar, acabada a limpeza da bunda, o cara peladão sentou-se ali mesmo, na calçada, e dobrou-se ao meio, abraçando os joelhos, com a cabeça entre eles. E nem se dava pelos poucos passantes, estava alheio ao mundo, talvez drogado, sei lá.
Ao passar por ele, vi a seu lado o que havia restado de suas roupas, uma bermuda imersa num alagado de bosta. O cara não se aguentou, cagou-se todo e acabou lá, nu. Além de mim, os poucos que por ali passavam também olhavam àquilo com estranheza, piedade, medo, nojo, mas principalmente com incredulidade.
Nem eu nem os outros estávamos acostumados a ver um humano reduzido ao seu estado mais primal, puramente instintivo, sem nenhuma artificialidade.
Tenho cá comigo que todo o esforço do homem em construir seu conhecimento, suas tecnologias, erigir suas civilizações e até seus deuses, tem como objetivo primário, ainda que inconsciente, o de se negar como o animal que é, milênios de desenvolvimento humano destinados a um único intento, disfarçar sua natureza animalesca.
Nós nos depilamos, escovamos os dentes (não gostamos de nossos gostos e hálitos), cortamos nossas unhas, tomamos banho, lançamos mão de sabonetes, xampus, perfumes, cremes e uma infinidade outra de produtos que escondem nossos odores, nosso próprio cheiro nos parece podre, usamos roupas que disfarçam nossas imperfeições. Já pararam para pensar quanta tecnologia e dispêndio de energia há nessas poucos coisas que listei?
Pois bem. O cara nu, peludo, cagado e fedido punha abaixo todo esse esforço para não parecermos animais, demolia toda a empáfia humana em se julgar diferente e melhor. Daí o mal-estar dos que por ele passavam, inclusive o meu.
Contei o ocorrido para uns poucos colegas do trabalho, para aqueles com pontos de vista mais afins aos meus. Depois de feitas as considerações, o nó da questão foi em como um sujeito chega a tal ponto de degradação, o que faz com que uma pessoa fique daquele jeito, totalmente destituída de humanidade?
Destituída de humanidade, isso foi consenso geral entre meus pares.
Não concordo com eles. Fiquei quieto, não prolonguei a discussão, mas não concordo com eles.
O cara pelado, peludo, embosteado e fedorento não estava em nada destituído de sua humanidade.
Pelo contrário, ele estava totalmente revestido de humanidade, a humanidade impregnava e emanava de cada um de seus poros naquele momento, nada havia ali que humano não fosse, nada havia ali de artificial.
O cara nu estava pleno de humanidade. E só dela!
Por isso, a estranheza. Por isso, a repugnância.
A repulsa por isso.
segunda-feira, 22 de março de 2010
domingo, 21 de março de 2010
LÁPIDES
E na lápide da humanidade:
"Até aqui estava dando tudo tão certo..."
E na minha lápide
- Ao lado da lápide da humanidade,
que ao lado (excluído) dela sempre fiz questão de me pôr -:
"Nem aqui vocês me dão paz".
E as briófitas e as pteridófitas tomam de volta os seus assentos,
Vicejam felizes e alheias a essa nossa desavença.
"Até aqui estava dando tudo tão certo..."
E na minha lápide
- Ao lado da lápide da humanidade,
que ao lado (excluído) dela sempre fiz questão de me pôr -:
"Nem aqui vocês me dão paz".
E as briófitas e as pteridófitas tomam de volta os seus assentos,
Vicejam felizes e alheias a essa nossa desavença.
sexta-feira, 19 de março de 2010
FINESSE - Luiz Felipe Pondé
Publicado na Folha de São Paulo, 15/03/2010 (os trechos destacados em vermelho são de grifo meu, o Azarão)
O filósofo francês Blaise Pascal (século 17) dividia a inteligência em dois tipos de "espíritos". "Espírito", aqui, significa "atividade intelectual" e não alma penada ou um princípio pessoal e imaterial como no kardecismo. Os dois tipos são: o espírito geométrico e o espírito de "finesse".
O primeiro teria como vocação lidar com um grande número de questões ao mesmo tempo, arranjando-as de modo linear e encadeado, a fim de gerar deduções lógicas generalistas e de grande alcance. O segundo teria uma vocação para o detalhe e a sutileza, lidando melhor com um pequeno número de variáveis a cada vez, e fugindo das generalidades apressadas.
O geométrico ama a pressa e os resultados eficazes, o de "finesse" cultua a paciência e o cuidado, mas pode ser de eficácia duvidosa.
Normalmente eu tendo para o espírito de "finesse". O problema é que numa sociedade gigantesca como a nossa, com problemas de dimensões estatísticas, o espírito geométrico tende a devorar a alma. E, por definição, a alma vive mal na geometria. Seu habitat natural é a "finesse" porque a geometria tende ao grosseiro quando envolve seres humanos.
Em nossa complexa sociedade, algumas questões são tratadas de forma grosseira porque nós temos pressa em resolvê-las ou porque queremos fazer mentiras passarem por verdades. E aí, nós caímos num frenesi geométrico.
Leitores perguntam qual é minha posição quanto ao tema das cotas nas universidades. Outros, perguntam-me: "Você é a favor ou contra os direitos gays?".
O frenesi geométrico tende a dar respostas afeitas ao gosto de políticas públicas e movimentos sociais. Respostas geométricas são assim: "sou a favor" ou "sou contra" cotas ou direitos gays. E pronto.
Confesso: tenho alergia a esse negócio de "movimentos sociais" e suspeito muito do caráter de quem vive sempre metido neles. Não existe algo chamado "multidão do bem", toda multidão é do mal.
Recentemente ouvi um comercial no rádio que falava "todos juntos com uma só vontade e um só objetivo" (algo assim). Sinto um frio na espinha quando vejo "vontades unidas", pouco importa para quê.
Perdoe-me se isso parece uma falha de caráter, ou, quem sabe, se não sofri o suficiente na vida até hoje para confiar em multidões do bem, ou se conheço muitas mulheres bonitas e que gostam de tomar vinho antes do sexo. Na vida de um homem, o que decide sua realização é sempre sucesso profissional e sucesso com as mulheres, quem disser o contrário mente. Minha suspeita básica é de que desde os irmãos Caim e Abel (Caim matou Abel por inveja do amor de Deus pelo irmão), detestamos a felicidade no outro.
Mas e as cotas e os direitos gays? Tentemos uma resposta sem pressa.
Sou contra cotas raciais. Não acredito nessa coisa de dívidas históricas. Acho que isso serve para intelectuais fazerem carreiras ideologicamente orientadas (porque as universidades vivem sob repressão ideológica) e para pessoas politicamente articuladas garantirem seu futuro burocrático.
Sim, reinos africanos participavam do mercado de escravos e praticavam escravidão entre eles. Dizer que a escravidão dos africanos no Brasil foi uma mera questão de "europeus contra negros" é mentira. E mais: essa prática de cotas raciais (racismo "do bem") é tão racista quanto qualquer outra.
Dizer que reinos africanos e africanos libertos da escravidão no Brasil participaram do comércio de escravos não é "preconceito contra negros". Aqueles que afirmam isso o fazem por má fé.
Sou a favor de cotas em universidades públicas para estudantes de escolas públicas que se destacam em sua vida estudantil porque eu acredito em recompensar o mérito.
E os direitos gays? Não acho que gays devam ter direitos especiais. Leis que criminalizam gestos e palavras "contra os gays" para mim são mero fascismo.
Cirurgia para troca de sexo pago pelo Estado é um abuso para o contribuinte. Acho uma bobagem essa coisa de "homoafetividade".
É um abuso quando professores de educação sexual dão bananas para meninos colocarem camisinha com a boca, como se ser gay fosse "normalzinho". Deve-se respeitar o mal-estar das pessoas diante disso, e querer "formar" mentes nesse nível não é função da escola.
Entretanto, sendo gays pessoas comuns, acho que, sim, eles devem ter o mesmo direito que os outros: o direito de casar, criar filhos e ser (in)feliz no amor e na vida como todo mundo.
O filósofo francês Blaise Pascal (século 17) dividia a inteligência em dois tipos de "espíritos". "Espírito", aqui, significa "atividade intelectual" e não alma penada ou um princípio pessoal e imaterial como no kardecismo. Os dois tipos são: o espírito geométrico e o espírito de "finesse".
O primeiro teria como vocação lidar com um grande número de questões ao mesmo tempo, arranjando-as de modo linear e encadeado, a fim de gerar deduções lógicas generalistas e de grande alcance. O segundo teria uma vocação para o detalhe e a sutileza, lidando melhor com um pequeno número de variáveis a cada vez, e fugindo das generalidades apressadas.
O geométrico ama a pressa e os resultados eficazes, o de "finesse" cultua a paciência e o cuidado, mas pode ser de eficácia duvidosa.
Normalmente eu tendo para o espírito de "finesse". O problema é que numa sociedade gigantesca como a nossa, com problemas de dimensões estatísticas, o espírito geométrico tende a devorar a alma. E, por definição, a alma vive mal na geometria. Seu habitat natural é a "finesse" porque a geometria tende ao grosseiro quando envolve seres humanos.
Em nossa complexa sociedade, algumas questões são tratadas de forma grosseira porque nós temos pressa em resolvê-las ou porque queremos fazer mentiras passarem por verdades. E aí, nós caímos num frenesi geométrico.
Leitores perguntam qual é minha posição quanto ao tema das cotas nas universidades. Outros, perguntam-me: "Você é a favor ou contra os direitos gays?".
O frenesi geométrico tende a dar respostas afeitas ao gosto de políticas públicas e movimentos sociais. Respostas geométricas são assim: "sou a favor" ou "sou contra" cotas ou direitos gays. E pronto.
Confesso: tenho alergia a esse negócio de "movimentos sociais" e suspeito muito do caráter de quem vive sempre metido neles. Não existe algo chamado "multidão do bem", toda multidão é do mal.
Recentemente ouvi um comercial no rádio que falava "todos juntos com uma só vontade e um só objetivo" (algo assim). Sinto um frio na espinha quando vejo "vontades unidas", pouco importa para quê.
Perdoe-me se isso parece uma falha de caráter, ou, quem sabe, se não sofri o suficiente na vida até hoje para confiar em multidões do bem, ou se conheço muitas mulheres bonitas e que gostam de tomar vinho antes do sexo. Na vida de um homem, o que decide sua realização é sempre sucesso profissional e sucesso com as mulheres, quem disser o contrário mente. Minha suspeita básica é de que desde os irmãos Caim e Abel (Caim matou Abel por inveja do amor de Deus pelo irmão), detestamos a felicidade no outro.
Mas e as cotas e os direitos gays? Tentemos uma resposta sem pressa.
Sou contra cotas raciais. Não acredito nessa coisa de dívidas históricas. Acho que isso serve para intelectuais fazerem carreiras ideologicamente orientadas (porque as universidades vivem sob repressão ideológica) e para pessoas politicamente articuladas garantirem seu futuro burocrático.
Sim, reinos africanos participavam do mercado de escravos e praticavam escravidão entre eles. Dizer que a escravidão dos africanos no Brasil foi uma mera questão de "europeus contra negros" é mentira. E mais: essa prática de cotas raciais (racismo "do bem") é tão racista quanto qualquer outra.
Dizer que reinos africanos e africanos libertos da escravidão no Brasil participaram do comércio de escravos não é "preconceito contra negros". Aqueles que afirmam isso o fazem por má fé.
Sou a favor de cotas em universidades públicas para estudantes de escolas públicas que se destacam em sua vida estudantil porque eu acredito em recompensar o mérito.
E os direitos gays? Não acho que gays devam ter direitos especiais. Leis que criminalizam gestos e palavras "contra os gays" para mim são mero fascismo.
Cirurgia para troca de sexo pago pelo Estado é um abuso para o contribuinte. Acho uma bobagem essa coisa de "homoafetividade".
É um abuso quando professores de educação sexual dão bananas para meninos colocarem camisinha com a boca, como se ser gay fosse "normalzinho". Deve-se respeitar o mal-estar das pessoas diante disso, e querer "formar" mentes nesse nível não é função da escola.
Entretanto, sendo gays pessoas comuns, acho que, sim, eles devem ter o mesmo direito que os outros: o direito de casar, criar filhos e ser (in)feliz no amor e na vida como todo mundo.
quarta-feira, 17 de março de 2010
Sem Negociações
Em entrevista a Gabriela Dobner, do iG São Paulo, Paulo Renato Souza, secretário de educação paulista, disse sobre a greve dos professores: "Não há o que negociar".
Discordo dele. Existe muito a ser negociado. O que Paulo Renato quis dizer nas entrelinhas foi : o governo NÃO PRECISA negociar nada.
E não precisa, mesmo. É poderoso o suficiente para que não.
A Constituição assegura o direito de greve, mas não dá garantias de que ela irá funcionar ou de que terão de existir negociações. Espertíssimos esses rapazes que escrevem as leis no Brasil.
A greve é uma arma? Sim. Porém a serivço de quem, do trabalhador ou do governo?
Do trabalhador, bradarão os grevistas em uníssono.
Ora, professores, não sejamos burros, pelo menos não além do que eu já os considero, e pensemos, em que situação alguém (um Estado-Nação) concede a outrem (o trabalhador) o direito legal de lhe botar uma arma ao próprio peito?
Resposta simples: quando esse alguém se sabe totalmente invulnerável à ação daquela arma.
Mais: convencido da eficiência de tal "arma", o trabalhador deixa de pensar em outras formas de lutar, formas essas, talvez, com poder de coerção sobre o Estado.
O Estado só concedeu o direito à greve depois de muito bem se blindar contra ela e se equipar de um sem-número de recursos para desbaratá-la quando bem entender. E aí vem o trabalhador, bate no peito com orgulho, e acredita mesmo que tal direito constitucional foi conquista dele. E é a partir daí que o grevista trabalha a favor do Estado.
O Estado, como todo bom tocador de gado, sabe que nunca se deve encurralar totalmente o bicho, sempre deve restar ao animal o vislumbre de uma possibilidade de fuga (ainda que ínfima), de uma melhora (ainda que ilusória), deve sempre se dar ao bicho um alento, um respiradouro, uma válvula que alivie a pressão quando ela estiver próxima de seu ponto crítico, senão o bicho estoura verdadeiramente para cima do dono. E isso é tudo o que o dono não quer.
O direito constitucional à greve é essa ilusão dada ao trabalhador de que ele pode efetivamente, e pelas próprias mãos, dar rumos mais dignos à sua profissão. Não pode. O direito à greve é o engodo dado ao bicho de que ele é dono e senhor de seu destino. Não é. A greve é aquela valvulazinha que, de tempos em tempos, alivia a pressão.
Quando detectam que a coisa está realmente para explodir, governos e sindicatos confabulam, armam o circo da greve e põem tudo de volta em seus devidos lugares. Indubitavelmente, a greve tem importante função social, dá esperança (vã como todas) ao trabalhador, mantém tudo nos eixos.
Greve não é indício de desordem, antes pelo contrário, da reinstalação da ordem.
Mas, devo confessar, estou um tanto decepcionado com um aspecto dessa greve. Até agora, não vi professor apanhando em manifestações, não vi a polícia "chegando junto" nas passeatas, não vi ninguém ser pisoteado pelos cavalos, ninguém sair de olhos inchados de uma nuvem de gás lacrimogênio, ninguém a correr com balas de borracha a lhe pipocar o lombo.
Mas ainda resta uma esperança, parece que sexta-feira (19/03) haverá nova manifestação na avenida Paulista. Quem sabe dessa vez.
Rapaz...como eu gosto de ver grevista levar bordoada.
Discordo dele. Existe muito a ser negociado. O que Paulo Renato quis dizer nas entrelinhas foi : o governo NÃO PRECISA negociar nada.
E não precisa, mesmo. É poderoso o suficiente para que não.
A Constituição assegura o direito de greve, mas não dá garantias de que ela irá funcionar ou de que terão de existir negociações. Espertíssimos esses rapazes que escrevem as leis no Brasil.
A greve é uma arma? Sim. Porém a serivço de quem, do trabalhador ou do governo?
Do trabalhador, bradarão os grevistas em uníssono.
Ora, professores, não sejamos burros, pelo menos não além do que eu já os considero, e pensemos, em que situação alguém (um Estado-Nação) concede a outrem (o trabalhador) o direito legal de lhe botar uma arma ao próprio peito?
Resposta simples: quando esse alguém se sabe totalmente invulnerável à ação daquela arma.
Mais: convencido da eficiência de tal "arma", o trabalhador deixa de pensar em outras formas de lutar, formas essas, talvez, com poder de coerção sobre o Estado.
O Estado só concedeu o direito à greve depois de muito bem se blindar contra ela e se equipar de um sem-número de recursos para desbaratá-la quando bem entender. E aí vem o trabalhador, bate no peito com orgulho, e acredita mesmo que tal direito constitucional foi conquista dele. E é a partir daí que o grevista trabalha a favor do Estado.
O Estado, como todo bom tocador de gado, sabe que nunca se deve encurralar totalmente o bicho, sempre deve restar ao animal o vislumbre de uma possibilidade de fuga (ainda que ínfima), de uma melhora (ainda que ilusória), deve sempre se dar ao bicho um alento, um respiradouro, uma válvula que alivie a pressão quando ela estiver próxima de seu ponto crítico, senão o bicho estoura verdadeiramente para cima do dono. E isso é tudo o que o dono não quer.
O direito constitucional à greve é essa ilusão dada ao trabalhador de que ele pode efetivamente, e pelas próprias mãos, dar rumos mais dignos à sua profissão. Não pode. O direito à greve é o engodo dado ao bicho de que ele é dono e senhor de seu destino. Não é. A greve é aquela valvulazinha que, de tempos em tempos, alivia a pressão.
Quando detectam que a coisa está realmente para explodir, governos e sindicatos confabulam, armam o circo da greve e põem tudo de volta em seus devidos lugares. Indubitavelmente, a greve tem importante função social, dá esperança (vã como todas) ao trabalhador, mantém tudo nos eixos.
Greve não é indício de desordem, antes pelo contrário, da reinstalação da ordem.
Mas, devo confessar, estou um tanto decepcionado com um aspecto dessa greve. Até agora, não vi professor apanhando em manifestações, não vi a polícia "chegando junto" nas passeatas, não vi ninguém ser pisoteado pelos cavalos, ninguém sair de olhos inchados de uma nuvem de gás lacrimogênio, ninguém a correr com balas de borracha a lhe pipocar o lombo.
Mas ainda resta uma esperança, parece que sexta-feira (19/03) haverá nova manifestação na avenida Paulista. Quem sabe dessa vez.
Rapaz...como eu gosto de ver grevista levar bordoada.
terça-feira, 16 de março de 2010
A Burrice Continua, Companheiro
Li no jornal "Zero Hora" que a APeoesp decidiu manter a greve dos professores de SP iniciada na segunda-feira, 08/03/10.
Façamos algumas considerações.
Se quiser lograr êxito, uma greve deve atender a requisitos básicos:
Tem que causar prejuízo ao empregador, a dos professores dá lucro, esses dias não pagos gerarão milhões de caixa para a campanha do Serra à Presidência;
Tem que ser relacionada a setores de urgência tais como saúde, segurança, coleta de lixo, transporte, tem que fazer falta imediata, a dos professores é prontamente festejada pelos alunos, teoricamente quem deveria se ressentir de nossos serviços;
Tem que ser rápida, para evitar desgastes e atritos entre os praticantes da profissão, nenhum grupo humano é capaz de permanecer por muito tempo em acordo e harmonia, sua rapidez também é necessária vista a supressão do salário dos dias parados, a dos professores, dados os dois motivos iniciais, é greve longa, cansativa, de muito fôlego;
Tem que ter apoio da população, ainda mais sendo uma greve pública, a dos professores não tem apoio nenhum da população, aos olhos da qual professor já ganha muito bem pelo que faz;
Por fim, mas ainda sem elencar todos os motivos pelos quais uma greve de professores nunca sairá vitoriosa, uma greve precisa de uma retaguarda forte, que dê respaldo ao grevista quando esse começar a sofrer as sanções e penalizações, ou seja, é elemento fundamental numa greve, um sindicato forte, honesto no mínimo, o dos professores é um sindicato canalha, vendido, seus dirigentes sempre barganham a bunda do professor por um carguinho público.
Então é óbvio mais um malogro dessa greve.
A greve continua, a burrice continua.
A Apeoesp noticia 80% de adesão, o governo estadual, 1%. Não acredito em nenhum dos dois.
Na mesma reportagem do "Zero Hora", havia informes da quantidade de professores na manifestação feita na sexta, 12/03/10, na avenida Paulista. A polícia diz que foram 5 mil, a Apeoesp, 15 mil, mas a Apeoesp, para efeito de números, conta até o sorveteiro, o vendedor de água, de cachorro-quente, o de CD pirata...
Passeata gay reúne mais de um milhão. Até o reino da bicharada é mais unido que professor.
Consideremos uns 10 mil participantes. São mais de 200 mil professores no Estado, isso nas minhas contas são 5% do total. Claro que devemos considerar as dificuldades de deslocamento dos professores das outras cidades para a capital, mas ainda é um número inexpressivo mesmo que levemos em conta apenas os professores sediados na capital.
Dizer de uma adesão de 1%, como diz o governo, é uma tentativa de dizer que o problema não existe, empurrar pra baixo do tapete, porém dizer de uma adesão de 80%, como diz a Apeoesp, é chamar todo mundo de idiota, de burro.
A burrice continua, companheiro.
Façamos algumas considerações.
Se quiser lograr êxito, uma greve deve atender a requisitos básicos:
Tem que causar prejuízo ao empregador, a dos professores dá lucro, esses dias não pagos gerarão milhões de caixa para a campanha do Serra à Presidência;
Tem que ser relacionada a setores de urgência tais como saúde, segurança, coleta de lixo, transporte, tem que fazer falta imediata, a dos professores é prontamente festejada pelos alunos, teoricamente quem deveria se ressentir de nossos serviços;
Tem que ser rápida, para evitar desgastes e atritos entre os praticantes da profissão, nenhum grupo humano é capaz de permanecer por muito tempo em acordo e harmonia, sua rapidez também é necessária vista a supressão do salário dos dias parados, a dos professores, dados os dois motivos iniciais, é greve longa, cansativa, de muito fôlego;
Tem que ter apoio da população, ainda mais sendo uma greve pública, a dos professores não tem apoio nenhum da população, aos olhos da qual professor já ganha muito bem pelo que faz;
Por fim, mas ainda sem elencar todos os motivos pelos quais uma greve de professores nunca sairá vitoriosa, uma greve precisa de uma retaguarda forte, que dê respaldo ao grevista quando esse começar a sofrer as sanções e penalizações, ou seja, é elemento fundamental numa greve, um sindicato forte, honesto no mínimo, o dos professores é um sindicato canalha, vendido, seus dirigentes sempre barganham a bunda do professor por um carguinho público.
Então é óbvio mais um malogro dessa greve.
A greve continua, a burrice continua.
A Apeoesp noticia 80% de adesão, o governo estadual, 1%. Não acredito em nenhum dos dois.
Na mesma reportagem do "Zero Hora", havia informes da quantidade de professores na manifestação feita na sexta, 12/03/10, na avenida Paulista. A polícia diz que foram 5 mil, a Apeoesp, 15 mil, mas a Apeoesp, para efeito de números, conta até o sorveteiro, o vendedor de água, de cachorro-quente, o de CD pirata...
Passeata gay reúne mais de um milhão. Até o reino da bicharada é mais unido que professor.
Consideremos uns 10 mil participantes. São mais de 200 mil professores no Estado, isso nas minhas contas são 5% do total. Claro que devemos considerar as dificuldades de deslocamento dos professores das outras cidades para a capital, mas ainda é um número inexpressivo mesmo que levemos em conta apenas os professores sediados na capital.
Dizer de uma adesão de 1%, como diz o governo, é uma tentativa de dizer que o problema não existe, empurrar pra baixo do tapete, porém dizer de uma adesão de 80%, como diz a Apeoesp, é chamar todo mundo de idiota, de burro.
A burrice continua, companheiro.
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