quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Bifurcações

Ficar recluso
No escuro
(talvez um simulado para a morte)
A beber
A lembrar da vida
A recordar histórias
A rabiscar autobiografia não autorizada
Ou
Me relançar ao asfalto
Dar a cara a novos infaustos
A novas e gloriosas inglórias?
Escrever com a universal e inócua tinta azul-bic
Em pautada e bem passada folha de papel de carta
Ou 
Com a gosma verde-raivosa
Que estupora em bravatas
Que jorra em vitupérios do estômago ulcerado?
Com a intacta memória
Ou
Com todos os ossos quebrados?
Vai ver o saudosismo e a memorabilia
Sejam o imago da vida
A sua definitiva forma
Que arrebenta do casulo.
Mas provavelmente não.

(e uma de minhas gatas cava fundo a caixa de areia, caga para as minhas bifurcações. Sabe que amanhã sua areia estará limpa, sua tigela de ração, abastecida, sua água, renovada. Por que algo além disso a preocuparia?)

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Cheiro de Cu, Não Há o Que Tire

É óbvio que o Marreta não é um site de piadas. Vez em quando, eu até me arrisco com alguma, mas só nas ocasiões em que o assunto do qual estou a tergiversar me remete a um chiste, a um contexto similar. Postar uma piada pura e isolada, uma piada per si, a piada pela piada, é a primeira vez.
Primeiro porque a piada é muito boa e, sobretudo, porque eu não a conhecia. Eu sou um péssimo contador de piadas, não tenho a menor teatralidade, a menor verve humorística; porém, modéstia à parte, guardo um vasto anedotário em minha velha memória. Tenho vinis antigos do Juca Chaves, do Costinha, do Ari Toledo, do Agildo Ribeiro etc. É ocorrência rara uma piada que eu não conheça.
Segundo porque estou numa daquelas minhas deprês brabas, com uma falta de assunto do caralho e sem nenhuma vontade de ir atrás de um tema para escrever. Vamos, portanto, a ela.
"O cara tava lá, no maior dos 69 com a mulher. Finda a função, ele se lembrou de que tinha dentista marcado para logo mais. Preocupação básica : erradicar o cheiro de buceta da boca antes de abri-la ao escrutínio do odontólogo. O cara passou fio dental, escovou os dentes uma, duas, três vezes, enxaguou a boca com listerine, cepacol, malvatricin, vinagre e sal, limão, soda cáustica. Conferiu o serviço : pôs a mão em concha em frente à boca e bafejou umas tantas vezes. Aprovado. Cheiro de buceta zero.
O dentista examinou a boca do cara, fez o serviço necessário, tirou tártaro, fez limpeza, aplicou flúor.
Fora da cadeira e já na mesa do dentista, para acertar a dolorosa, o doutor lhe diz : - olha, eu não tenho nada a ver com isso, mas o senhor estava fazendo um 69 antes de vir pra cá, não estava? Assustado com os poderes de clarividência do dentista, o cara diz que estava sim, mas que fizera assepsia total, que ele próprio não conseguia notar o mais sutil odor de buceta que fosse em sua boca.
- Realmente, diz-lhe o dentista, a sua boca não tem o menor cheiro de buceta, mas a sua testa tá com um cheiro de cu filho da puta!"

domingo, 15 de novembro de 2015

Bukowski, Definitivo

"é o mesmo que antes
ou que da outra vez
ou da vez anterior a essa.
eis um pau
e eis uma boceta
e eis um problema."

sábado, 14 de novembro de 2015

Tecla Replay

As pessoas
Sofrem danos irreparáveis
E
Óbvio
Ao contrário do que acreditam
Deles não se refazem
Não se regeneram
Uma vez que irreparáveis.
Mas seguem
Claudicantes e manquitolas
Alquebradas
Mutiladas e estropiadas
Felizes aleijões.
E seguem.
E seguem.
E seguem.
Maldito instinto de sobrevivência
Maldita tecla replay enxertada em nosso DNA :
Dispositivo feito para a diversão de Deus.

O Psicólogo de Guarda-Chuva, por Jota

Então você está deitado olhando para o teto, a pensar sobre a maravilhosa e entediante estadia vulgar ou existência das coisas, sobre o fervilhar indissociável do que lhe cerca de si, diante da tranquila e ilusória sensação de que nada acontece. 
Você estreita os olhos e tomba um pouco a cabeça, num movimento que lembra o que os cães costumam fazer quando não compreendem alguma coisa, ou o que os idiotas fazem sempre ao tirar selfies. Ângulos. Alguém já disse que não somos mais tão crianças a ponto de saber de tudo, ponto bem feito, as crianças sempre veem as coisas de baixo pra cima ou do mesmo patamar: coisa, bicho, gente. Tudo igual. 
Certa vez vi uma moça escolher um vestido num brechó, em uma dessas casas de aluguel de trajes, escolheu um vestido de festa, queria saber se fora usado em algum casamento ou comemoração de quinze anos. 
O vestido era rosa, inteiro de paetês e pelo tamanho se fazia óbvio que devia ter servido a alguma debutante. A moça sorriu com a resposta positiva da vendedora e se virou sem mais a ponto de que eu pudesse ouvi-la dizer “um vestido tão bonito, que alguém amou demais por uma noite e pra nunca mais, o que faz você aqui junto de outros vestidos?”. 
Quantas as coisas temos ou será que as coisas nos têm? Quantos corpos terá visto aquele espelho? Quantas Alices o atravessaram? Quantas vezes o velho relógio roubou seus sonhos cronometrados, como quem puxa o tapete debaixo dos seus pés, como quem anuncia que o seu tempo acabou? Percebe o olhar de reprovação das coisas que lhe cercam, todas que você amou por um momento e se esqueceu. Todos os boa-noite que você não deu para a luminária antes de apagar, todos os bom-dia que você não disse para as cortinas ao descerrar, não houve uma só despedida para a xícara partida, fiel companheira de todas as manhãs, nenhum funeral para a caneca de todas as noites que finalmente se quebrou. E por onde será que anda aquele maldito guarda-chuva quebrado, largado ao relento, que fim será que levou?

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Que Fossa, Hein, Meu Chapa, Que Fossa...(34)

Por várias vezes, cogitei em colocar essa música aqui na seção Que Fossa..., mas sempre fui deixando, deixando... Até que hoje ela me aparece como sugestão em um comentário anônimo. O anônimo, provavelmente uma anônima, diz que já chorou as pitangas ouvindo essa bela e pungente canção da dupla dinâmica Roberto e Erasmo Carlos.
A letra fala de uma fossa diferente, uma fossa aos avessos. Não é a fossa pelo amor que se vai, é a pelo amor que sempre volta, que não caga nem desocupa a moita. Não é fossa pelo inatingível, é pelo inescapável. 
É quando o desejo se concretiza e desmente e extermina com o que era sonho. É o veneno tomado no vinho a dois. É o arrimo que é areia movediça. É o martírio causado não pelo sumiço do ser amado, mas por sua onipresença, a emplastar e a sufocar todos os poros. É o ômega-3 que colapsa as linhas tortas pelas quais sempre escreve o incauto coração.
É a fossa que não pede, "volta, vem viver outra vez ao meu lado, não consigo dormir sem seu braço...", é a que implora, "não volte nunca mais pra mim, do fundo do meu coração, não volte nunca mais pra mim".
Que fossa, hein, meu chapa, que fossa...
E quem será o canalha que fez/faz a anônima tanto chorar?
Do Fundo do Meu Coração
(Erasmo Carlos/Roberto Carlos)
Eu, cada vez que vi você chegar
Me fazer sorrir e me deixar
Decidido eu disse nunca mais


Mas, novamente estúpido provei
Desse doce amargo quando eu sei
Cada volta sua o que me faz

Vi todo o meu orgulho em sua mão
Deslizar, se espatifar no chão
Vi o meu amor tratado assim
Mas, basta agora o que você me fez
Acabe com essa droga de uma vez
Não volte nunca mais pra mim


Mais uma vez aqui
Olhando as cicatrizes desse amor
Eu vou ficar aqui
E sei que vou chorar a mesma dor
Agora eu tenho que saber
O que é viver sem você

Eu, toda a vez que vi você voltar
Eu pensei que fosse pra ficar
E mais uma vez falei que sim
Mas, já depois de tanta solidão
Do fundo do meu coração
Não volte nunca mais pra mim

Mais uma vez aqui
Olhando as cicatrizes desse amor
Eu vou ficar aqui
E sei que vou chorar a mesma dor

Se você me perguntar se ainda é seu
Todo o meu amor, eu sei que eu
Certamente vou dizer que sim
Mas já depois de tanta solidão
Do fundo do meu coração
Não volte nunca mais pra mim

Do fundo do meu coração
Não volte nunca mais pra mim.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Novembro Azul no Cu dos Outros é Refresco

Na esteira do Outubro Rosa, foi instituído o Novembro Azul.
Providencial e em tempo. Ou a politicamente correta e frouxa macharada dos dias de hoje já estaria de choramingos e chororôs. A macharada sensível do século XXI estaria a protestar com todas as forças de sua testosterona de salão de beleza que a falta de um mês também dedicado ao outrora sexo forte é puro preconceito, é discriminação flagrante, é feminismo xiita, é vaca chauvinismo, é machofobia.
O primeiro teve data definida em 1997, lá nos EUA, e alerta para a necessidade de exames preventivos regulares do câncer de mama, daí o rosa com que pintaram outubro, embora homens também possam padecer desse mal; o segundo, em 2003, lá em terras de cangurus e ornitorrincos, e avisa da precisão de exames preventivos regulares do câncer de próstata.
Um parêntese : discordo do termo "preventivo". Nenhum exame previne o câncer, ou qualquer outra doença. Também não concordo com exame de diagnóstico "precoce". Que nenhum exame também detecta o câncer antes dele surgir. Exames de diagnósticos regulares podem detectar tumores em seus estágios iniciais e aumentar as chances de cura. As chances.
Voltando. Então, a coisa ficou assim : um mês mar de rosas para as meninas e um mês tudo azul para os meninos. Mais politicamente correto e babaca, impossível. Devo, no entanto, nesses casos, apesar de abominar o politicamente correto, dar meu braço à torção e meu cu a dedo : as iniciativas são boas e meritórias.
Apenas um porém : os cartazes, os anúncios, os folhetos explicativos etc sobre o tal do Novembro Azul são, óbvio, politicamente correto demais. Polidos e comportados demais. Sutis demais. Suas mensagens, quase que subliminares. Próprios de um tipo de conduta de quem gosta de opinar sobre tudo, dar palpite e meter o nariz em tudo, mas sem se comprometer. Eu, mandei alguém ir levar dedada no cu? Imagine... onde está escrito isso? Diria um canalha politicamente correto frente a um machão ofendido.
Os cartazes do Novembro Azul trazem a famosa fita dobrada em laço, na cor azul, alguns recomendam que se faça o exame de próstata e, a confirmar que é uma campanha direcionada ao público masculino, ostentam um basto e viril bigodão como figura central. Com diversas variações, todos são mais ou menos assim :
Se para bom entendedor, meia palavra basta, para o mau, ou pior, para aquele que não é sequer capaz de entender porra nenhuma - nem bem nem mal -, nem todos os léxicos do mundo são suficientes.
No geral - e na melhor das hipóteses -, o brasileiro é um povo semiletrado. Duvido, inclusive, que o grosso da população - o povo que vota no PT, por exemplo - saiba o que é a próstata, qual sua função, onde se localiza e qual é a sua temerosa via de acesso.
Ler nas entrelinhas? Captar a intenção e as nuances da mensagem? Nem fudendo!
Provavelmente, esses cartazes são inspirados, ou seja, são cópias brabas mesmo de campanhas veiculadas nos EUA, Europa, Japão etc. Locais em que a escola é obrigação, não divertimento. Locais onde reprovar um incapaz que se recusa em aprender, ou expulsar um mau elemento em prol da comunidade escolar não são crimes previstos nas Leis de Diretrizes e Bases da Educação. 
Aqui, não funciona! Com o brasileiro, há de se ser curto e grosso. Feito dedo de urologista. Há de se usar a linguagem mais primária possível. A pictórica. A das cavernas, de preferência. A rupestre. Entendeu ou quer que eu desenhe? O brasileiro quer que desenhem pra ele.
Foi pensando nisso, uma vez que o Marreta tem um compromisso de utilidade pública firmado para com a sociedade , que lanço agora um cartaz alternativo do Novembro Azul. Sem rodeios nem circunlóquios. Direto ao ponto.
O cartaz foi concebido, composto e editado por mim mesmo, que fui lá no programa Photofiltre e aprendi uns truquezinhos. O recado está dado. Daqui em diante, cada um que cuide do seu.
E esse tá zeradinho! Com todas as pregas no lugar! Em dia! Passa fácil no teste da farinha!

domingo, 8 de novembro de 2015

Coração de Lata

E o tolo Homem de Lata
Julgou que um coração
Resolveria seus problemas...
Antes tivesse
Pedido miolos.
É o que dá
Ir atrás de mágicos
Poetas
E outros ilusionistas.

Cuecão de Couro, Mano!!!

Se houve um sujeito (e digo houve porque as novas gerações de fãs de quadrinhos certamente nunca ouviram falar dele) odiado, execrado, abominado pelos aficionados em HQ das décadas de 50, 60, 70 e 80, se houve um filho da puta que seria amarrado a um poste e malhado feito um Judas e depois ainda empalado caso aparecesse numa Comicon, supondo que elas existissem à época, esse sujeito seria o psiquiatra Frederic Wertham.
Foi esse canalha que, em 1954, publicou o livro A Sedução dos Inocentes, cujas heréticas páginas colocava os quadrinhos de super-heróis, policiais, de terror e mistério no banco dos réus. As acusações do crápula : incitação à delinquência juvenil, ao uso de drogas e entorpecentes, à paronoia e à esquizofrenia, e o pior : segundo o doutor - que em seu currículo consta ter sido correspondente de Freud, um outro maníaco comedor de bosta e com tesão na mãe -, os quadrinhos levavam os adolescentes ao afrouxamento da rosca, à comichão do brioco, ao tesão na argola.
E os culpados de toda a viadagem enrustida da América : Batman e Robin.
Segundo o doutor, eles representavam os desejos de dois homossexuais vivendo juntos em condições escusas e de clandestinidade. Tanto que, à época, quando um sujeito assumia sua boiolagem, era usual dizerem : o fulano soltou a morceguinha, saiu da bat-caverna.
E tudo com base em um quadrinho em que Batman e Robin se trocavam na bat-caverna separados apenas por um biombo, que deixava entrever as sombras musculosas dos dois através de seu diáfano tecido. Frederic Wertham deve ter ficado excitadíssimo. Deve ter tocado muita bronha para as silhuetas definidas de Bruce Wayne e Dick Grayson. Como podemos ver, o "trabalho" do psiquiatra era realmente "muito bem fundamentado", com sólidos argumentos "científicos". Aliás, próprio aos da psiquiatria, psicologia, psicanálise etc.
Em virtude da publicação de A Sedução dos Inocentes, Wertham foi chamado a depor sobre delinquência juvenil na subcomissão do Senado do Tio Sam, e o resultado direto de seu depoimento foi a criação do Comic Code Authority, um código de censura para os quadrinhos sem cujo selo estampado nas capas, certificando a "qualidade" do material, o gibi não poderia ser publicado. Uma verdadeira Letra Escarlate dos quadrinhos.
Aqui, porém, assumo um pouco o papel de advogado do diabo e pergunto se o doutor estava mesmo totalmente desprovido de razão - tanta da razão psíquica como da analítica, a que se funda em argumentos.
Estaria o bom doutor a ver pelo em ovo, chifre em cabeça de cavalo, paudurescência em sunga de velho? 
Vejamos.
Tempos de plena liberdade tendem a ser tão perigosos quanto os de férrea opressão. Excessos podem ser cometidos - e sistematicamente o são - tanto em uma democracia quanto em uma ditadura. Irmãs xifópagas, a liberdade e a tirania. Tanto que períodos longos de uma acabam por exigir períodos da outra. 
Uma longo período de despotismo, de proibições, de falsos moralismos, de castração, acaba por eclodir em revolta, em revolução por liberdade, por um respiradouro. Um extenso período de liberdade acaba por afluir em desregramento, licenciosidades, libertinagens, devassidões mil e perda do norte; aí vem a vontade/necessidade de alguém que ponha ordem na casa, que assuma uma linha mais dura, que restrinja o Carnaval aos quatro dias que lhe é destinado. E o ciclo se repete, ad infinitum.
É triste. Mas é parte da dual e inerraigável indecisão e insatisfação humana, incapaz de se pautar pela moderação, pelo caminho do meio.
A década de 50 foi uma década de euforia para os EUA, eles haviam acabado de vencer a 2ª Guerra Mundial e se tornado donos do mundo, uma era de prosperidade se anunciava, a América e o resto do mundo estavam livres do terrível Eixo. Liberdade era a palavra de ordem. Não estaria certo o renomado doutor sobre possíveis excessos, decorrentes de toda essa euforia?
Esqueçamos o sutil e discreto biombo, que foi o pivô da suspeita do doutor sobre Batman e Robin, e tomemos outro quadrinho da dupla dinâmica.
Enquanto isso, na bat-caverna...
Robin : “Essa é a primeira vez que tivemos a oportunidade de catalogar esses troféus desde que você retornou. Nossa, Batman…lembra da sunga de couro? (a palavra THONG também pode ser traduzida como chinelo de dedo, ou “tira de couro”) Ela ainda tem amarcas de seus dentes nela.”
Pããããta que o pariu!!!
Cuecão de couro, mano!!! Macho até debaixo de outro macho!!!
Aí, por mais que eu queira, não dá pra tirar a razão do doutor Wertham!
Algum bat-maníaco pode estar a me amaldiçoar e a dizer que o quadrinho acima, assim isolado, foi tirado de seu contexto original e usado para propósitos vis de desmoralizar o Cruzado Embuçado.
Admito que esse tipo de expediente, de ardil, de filha da putice - descontextualizar um trecho, um excerto e fazer uso tendencioso dele - é cada vez mais comum hoje em dia. Mas nesse caso? Em que outro contexto, a marca de seus dentes, Batman, ainda estão na sunga de couro pode significar outra coisa a não ser a marca de seus dente, Batman, ainda estão na sunga de couro?
Ponto para o doutor Frederic Wertham.
Touché!
Ippon!

sábado, 7 de novembro de 2015

Ponto de Viragem

Fui ao mesmo dentista
Durante trinta e dois anos,
Ao mesmo barbeiro
Por vinte e três. 
O primeiro,
Troquei há quatro anos
(e os dentes vão bem e obrigado, amarelos e tortos como sempre)
O segundo,
Há dois
(e o cabelo está no ponto de viragem do charmoso azul-grisalho para o senil branco-paina; continuo lavando-o só a sabonete e penteando-o com os dedos).
E foi fácil.
Nenhum remorso
Nenhuma estranheza
Nenhum esforço de adaptação
Nenhum telefonema comunicando o rompimento.
Somos muito menos fiéis
Do que, às vezes, pensamos ser
Do que gostamos de nos considerar
Do que a imagem de nosso espelho interno.
Quase sempre, na verdade.

E tomo o primeiro gole do dia
E ofereço em sacrifício ígneo
A alma de um incenso de cravo.
Um rito de praga e maldição
À minha megalomania desmascarada.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Pérolas do ENEM? Porra Nenhuma! O Negócio Agora São as Pérolas da Dilma

Do Blog do Beto
Acompanhem a excelência do português de nossa presidente.

Neurônio de jaleco
“Uma das pessoas, inclusive, me disse: ‘o médico não me toca’. Ela queria que o médico lá tocasse… porque aquilo que a gente… pelo menos meu médico sempre me apalpou”.
(Dilma Rousseff, aproveitando a passagem pelo Rio Grande do Norte para avisar que as pacientes do Mais Médicos serão respeitosamente apalpadas pelos jalecos importados.)
Neurônio livre
“É importantíssimo que o ensino médio, no Brasil, não seja um ensino pura e simplesmente livresco. Tem de ser livresco porque todo aprendizado é livre, mas tem de ser técnico também”.
(Dilma Rousseff, em entrevista coletiva dada a rádios mineiras e transcrita pelo Portal do Planalto, internada por Celso Arnaldo ao atribuir à palavra livresco um sentido tão estapafúrdio que é preciso dar-lhe o benefício da dúvida: pode ter havido um erro de transcrição ─ se bem que esse livresco em dilmês faça o maior sentido)
A maldição do neurônio
“Estamos fazendo tudo isso para evitar a maldição do petróleo, e todos aqueles que teorizaram a maldição do petróleo foram os países que criaram a Opep, que é um país rico com nação e povo pobre, essa era maldição”.
(Dilma Rousseff, durante a assinatura de um contrato para construção de duas plataformas de petróleo, mostrando o que acontece quando o neurônio solitário fica sem combustível)
Neurônio irrecuperável
“Os meninos têm tanta importância quanto as meninas, e eu sempre disse que é. É, sabe por quê? Uma vez uma moça me disse o seguinte: tá certo, nós mulheres somos mães, porque não tem homem na Terra, nessa Terra, que não tenha uma mãe. Então, na verdade, está tudo em casa e em família. Então, a importância das mulheres é uma coisa que beneficia todos os homens também”.
(Dilma Rousseff, na cerimônia de formatura de alunos do Pronatec, em Uberlândia, internada por Celso Arnaldo ao demonstrar mais uma vez que, no Brasil governado pelo lulopetismo, educação básica e capacidade mínima de raciocínio deixaram de ser requisitos até para se chegar ao mais alto posto do país.)
Neurônio full time
“Eu sempre lutei pelo CAPS AD 24 horas, sabe por quê, o 24 e todos os dias da semana? Por causa do seguinte, não dá para a gente acreditar que a pessoa não fica passando mal de madrugada. Às seis horas da tarde, se fechar o CAPS AD, o que é que a pessoa faz se passar mal às sete, às oito, às nove e às dez?”
(Dilma Rousseff, em entrevista coletiva dada hoje a rádios mineiras, internada por Celso Arnaldo ao demonstrar que finalmente compreendeu por que os serviços de saúde de emergência devem funcionar dia e noite.)
Neurônio federal, estadual e municipal
‘Eu sou presidenta de todos os brasileiros. O governador é governador de todos os moradores do estado do Rio de Janeiro, e o prefeito é prefeito de cada uma das populações da sua cidade”.
(Dilma Rousseff, durante anúncio de investimentos para implantação da Linha 3 do Sistema Metropolitano do Rio de Janeiro, em São Gonçalo, internada por Celso Arnaldo ao apresentar sua versão em dilmês do princípio fundamental da Teoria Geral do Estado.)
Neurônio sem rumo
“Estou com o ministro Edison Lobão, de Minas e Energia, porque nós vamos lá em Itaboraí… desculpa, eu não vou em Itaboraí, eu vou lá em Inhaumá. Em Itaboraí eu ainda irei. É que eu vi… como eu vi o Comperj, eu vi o prefeito, eu falei assim para mim mesma: eu vou lá no Comperj. Mas hoje, viu prefeito, eu não vou no Comperj, não, eu vou lá em Inhaúma, no estaleiro, por isso que eu estou aqui com o ministro Lobão”.
(Dilma Rousseff, em São Gonçalo, internada por Celso Arnaldo ao comprovar que, na presença perturbadora do ministro Lobão, ela nunca sabe onde está, nem para onde vai.)
Neurônio desértico
“Porque, para se reservar água, é necessário ter onde reservar água”.
“Esse processo é um processo que ele é muito importante porque passa por uma compreensão diferenciada da situação. Isso que foi dito aqui: que não é necessário combater a seca, essa é uma visão errada, que nós todos concordávamos que nós temos que conviver com ela, e conviver com ela significará domá-la. É, na verdade, isso: conseguir gerenciá-la, conseguir fazer com que a população não tenha as consequências danosas que a seca produz”.

(Dilma Rousseff, internada por Celso Arnaldo depois de dois grandes momentos durante o anúncio do “Água para todos” ─ o primeiro programa contra a seca no Nordeste que não é contra a seca do Nordeste.)

Festival do Clitóris

Grelo é o embrião recém-surgido da semente, o germe dos bulbos, rizomas e tubérculos, ao aparecer fora da terra. Ou seja : o famoso broto.
Pratos e iguarias à base de grelo são típicos da culinária da Península Ibérica - Portugal, Espanha e Andorra. Tanto que, na Galícia, região noroeste da Espanha, acontece anualmente o Festival do Grelo. Grelos de couve, de brócolis, de espinafre, de nabo, de feijão etc. Grelos à mancheias. Servidos das mais diferentes formas : sopa de grelo, suflê de grelo, pastel de grelo, empanada de grelo, lasanha de grelo, grelo ao vinagrete, salada de grelo, grelo à milanesa, grelo à parmegiana, grelo ao molho pardo (se é que vocês em entendem) etc etc. É grelo pra tudo quanto é lado.
Só que a Espanha é uma zona no que diz respeito ao idioma. O espanhol, conhecido como castelhano (o espanhol oriundo da região de Castela), é tido como o idioma oficial do país, porém, cada uma das outras comunidades autônomas do país - Galícia, Andaluzia, País Basco, Catalunha e outras - tem a sua variação dele, seu dialeto próprio.
E foi aí que se deu a desgraça. Um jornal da região de Castela, ao divulgar o Festival do Grelo a ocorrer na região vizinha, ao invés de pagar um tradutor para verter a notícia do galego para o castelhano, deu o material para um Zé Ruela qualquer, que, simplesmente, o passou pelo tradutor do Google. O buscador do Google vê sacanagem em tudo. Qualquer coisa que você digitar no campo de busca, vai acabar em algum site ou foto de putaria. Você vai nas imagens e coloca lá, por exemplo, bóson de Higgs. Da metade da página para baixo, já começam a aparecer fotos de cacetes, tetas, boquetes, xavascas etc.
Por que com o tradutor Google seria diferente? Não é. O tradutor confundiu o grelo galego com a versão chula de clitóris em português. Sim, no bom, velho e imbatível português, grelo é clitóris, aquela campainha à porta da buceta, ou como se diz em Portugal, a aldrava da casa do caralho.
A notícia que, em seu original, era, A Feira do Grelo de As Pontes (nome da cidade), ficou, La Feria de Clítoris de Los Puentes. O Festival do Clitóris.
Aliás, um pequeno aparte : Portugal faz questão de traduzir tudo ao pé da letra. Mouse do computador, lá é rato mesmo. Mas, às vezes, esse nacionalismo, esse apego aferrado à última flor do Lácio, inculta e bela, pode ser perigoso. Contam que na década de 70, 80, Portugal traduzia até o nome dos patrocinadores da Fórmula Um. Goodyear virava Ano Bom; Firestone, fogo na pedra; e Pall Mall (uma marca de cigarro), o caralho maldito!
Voltando aos grelos, o erro que poderia desmoralizar e arruinar o evento, teve efeito contrário. Nunca a pequena cidade de As Pontes foi tão procurada. Hotéis, pousadas e albergues estão com as reservas esgotadas para o Festival do Clitóris, que, além da comida típica, conta também com eventos artísticos musicais. Homens de toda a Península Ibérica estão acorrendo para o Festival do Clitóris.
Inclusive, correm rumores de que várias cantoras de nossa MPB se ofereceram para abrilhantar os números musicais do Festival. De graça. Nem vão cobrar nada. O cachê, elas querem em grelo. Tudo em grelo.
E eu também. Ao sugo. Por favor...

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Batman e Robin - A Origem do Mito

Esta vai especialmente para você, Marcellão. Duvido que saiba da revelação bombástica que vem a seguir.
A desconfiança de que Batman/Bruce Wayne e Robin/Dick Grayson fossem muito mais que companheiros de combate ao mal e ao crime sempre recaiu sobre a bat-caverna. 
Constantes eram, e ainda são, mesmo tendo Dick Grayson se emancipado e se tornado o Asa Natourna, os rumores de que, ao encerrar do expediente, eles vestiam seus pijamas de morceguinhos e pintarroxos (robin, em inglês), tomavam uma chávena de chá, ou umas taças dos melhores vinhos da adega Wayne, ficavam em idílio ao pé da lareira e, por fim, dividiam a mesma bat-cama.
Desconfiança que sempre creditei à inveja do populacho, à maledicência do povão, que não pode ver ninguém feliz e bem-sucedido. Bruce Wayne é bilionário, tem QI de Einstein, perspicácia de Sherlock Holmes, porte físico de Adônis e a mulherada se joga aos seus pés. É também probo e reto : não entra em fila reservada para idosos no mercado ou no banco, não estaciona em vagas para deficientes físicos, nem "gato" da net, para pegar pay per view e canal pornô, ele tem. O que fazer contra um sujeito assim? Simples : lançar falsos sobre sua masculinidade. Dizer que ele é viado. É a vingança do povo. É bilionário? E daí, mas é viado. É inteligente? Viado. Bonitão e cobiçado? Continua sendo viado.
Sério que sempre dei o maior crédito à dupla dinâmica. Sempre lhes dei o maior apoio, como diria o Seo Peru, da Escolinha do Professor Raimundo. Até hoje. Até exatamente agora.
Revelou-se-me a verdade : a desconfiança da rosca frouxa, piscante e queimada do morcegão e do passarinho não é mera desconfiança, tampouco infundada aleivosia, é fato embasado em sólidas evidências. Irrefutáveis. Deixadas à posteridade por ninguém mais ninguém menos que Bob Kane, o pai dos dois heróis. 
A cena a seguir é forte e tem conteúdo voltado apenas ao público adulto. A foto é 1954, publicada na edição nº 84 da revista Batman.


Bruce Wayne e Dick Grayson aconchegados no mesmo ninho de amor. Um com o pijama dos Bananas de Pijama e o outro com um pijama de bolinhas amarelinhas tão pequeninhas. 
Ainda se o Batman fosse um herói brasileiro, fudido, assalariado, se morasse em um conjugado ou em uma kitnete, teríamos como lhe dar o benefício da dúvida, a falta de espaço e de cômodos obrigaria à tão suspeita proximidade. Mas não. A Mansão Wayne tem mais aposentos que o Palácio de Versalhes. A evidência iconográfica não deixa margem à dúvida nem à defesa : o Cruzado Embuçado e o Menino Prodígio mordem a fronha, beijam pra trás.
E os agravantes só se somam para o lado de Bruce Wayne : qual a idade do menino em sua cama? Segundo arquivos da DC Comics, Dick Grayson contava com 12 anos de idade quando ficou órfão e foi adotado por Wayne. Santa pedofilia, Batman. 
E o comissário Gordon sempre fez vistas grossas e acoitou a tara do amigo.
Mas e a Mulher Gato, e a Hera Venenosa? Com as quais sempre rolou aquela atração contida, aquele tesão recolhido, aquela alta-tensão erótica? Fachada. Pura fachada. Inimigas de conveniência.
Contudo, verdade seja dita : Bruce Wayne sempre cuidou muito bem de seu jovem pupilo, de seu imberbe efebo. Deu-lhe casa, comida, roupa lavada, boa educação e um propósito na vida. 
Dizem que até entoava canções de ninar quando o sono se demorava a vir para Robin. Bruce Wayne cantava-lhe ao pé do travesseiro : Fly, robin fly/Fly, robin fly/Fly, robin fly/Up, up to the sky. E o Robin fazia-lhe dueto, em segunda voz : Sou menino-passarinho/Com vontade de voar...
Pããããããta que o pariu!!!

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Lugar Comum

Nós não éramos nós
Não éramos carne fodendo carne
Éramos turistas
Em cidade nova
Que era cada um de nós.
Esgotados os pontos turísticos
Os monumentos
Os museus
As paisagens
Nossas malas
Dada a prática tanta
Se fizeram por si só.
Um, para o aeroporto
Outro, para a estação de trem.

Nós não éramos amantes
Nem amados
Nem amáveis
Não éramos xifópagos
Engatados cloaca com cloaca
Fazendo um pacto
De sangue
De porra
De muco 
De merda
De nossa imortalidade
Que o demônio nunca quis comprar.
Éramos um lugar
Um bar novo
Que lota no início
Que vai perdendo a clientela
E fecha.
E reabre
Como uma sorveteria
Uma loja de sapatos
Um salão de beleza
Um self service
Uma igreja
Uma escola
Ou qualquer outra coisa sem alma.

Todo Castigo Pra Corno é Pouco (20)

Essa eu não conhecia e é sensacional : Porteiro, Suba e Diga. Um tango bem tradicional indicado pelo Jotabê, e poucos ritmos são mais adequados para o corno chorar sua dor que o tango.
É a velha história do cara que se apaixona pela puta e tenta tirar a dita cuja da vida fácil. O sujeito faz de tudo pela amada, mas não tem jeito, ela não se desapega da antiga vida, não consegue passar muito tempo sem variar de cacete e começa a trair seu benfeitor. Só que o personagem da música é macho pra caralho, vai pra tirar satisfação com a vagabunda e, se preciso for, com os clientes do zonão também, caso algum queira interferir.
Cheio de macheza e orgulho de corno, ele ordena ao porteiro do zonão : Porteiro suba e diga aquela ingrata, Que aqui a espero, não sairei, Porteiro suba e diga aquela ingrata, Que eu espero o cabaré fechar..
Tá certo, mostra que respeita o trabalho da esposa. 
Não consegui ter certeza de quem foi o corno que compôs mais essa ode ao chifre; em alguns lugares dão-na como obra de José Ribeiro, em outros, de João Dias. Vou creditar ao dois.
Porteiro, Suba e Diga
(João Dias/José Ribeiro)
Porteiro suba e diga a aquela ingrata
Que aqui a espero
Não sairei
Até lhe ter lançado em pleno rosto
O meu desgosto
E a vergonha que passei.

Não tema, não estou embriagado
Venho controlado, só pra saber
Se é fato que ela troca os meus abraços
Com os palhaços que vem ao cabaré
E diga a esses trouxas
Que bebem e comem
Que aqui tem um homem
Disposto ao que for.
Mas diga pra ela
Que a espero tremendo
Sofrendo e gemendo, morrendo de amor.

Dois anos são passados desde quando
Ela chorando
Me apareceu
Dois anos eu lutei para salvá-la
Para tirá-la
Da miséria em que viveu
E tudo para que se me enganava?
Me atraiçoava, fingindo amar
Porteiro suba e diga a aquela ingrata
Que aqui espero o cabaré fechar...
E e escutem, é engraçada pra caralho, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Os Caçadores da Boceta Perdida

Em minhas curtas, lacônicas, praticamente misantrópicas conversas virtuais com o Jotabê, todas feitas via comentários de um no blog do outro - sem nenhuma viadagem -, uma besteira vai puxando a outra, que vai puxando a outra e muitas vezes deságua em inimagináveis absurdos e disparates.
Em resposta a um de meus comentários, disse-me que o fiz lembrar de um antigo colega, viciado em rapé, que frequentemente falava : "deixa eu pegar minha bocetinha".
Boceta, para os mais novinhos e, portanto, incultos, nada mais é que uma pequena caixa, redonda, oval ou oblonga, feita de materiais diversos, madeira, metais nobres, porcelana etc, que era usada para guardar pequenos objetos e, sobretudo, rapé. Rapé nada mais é que o fumo moído, o tabaco em pó. 
Cheirar rapé era visto como hábito elegante nos séculos XVIII, XIX e inícios do XX. O sujeito, da realeza ou da burguesia, de fraque e monóculo, tirava a sua boceta de rapé do bolso interno do paletó, abria a boceta, tomava uma pitada de rapé com o dedo mínimo, levava-a ao nariz e aspirava. Aí, era só esperar o espirro, que, segundo se acreditava à época, tinha propriedades terapêuticas de desobstruir as vias áreas, melhorar o desempenho dos pulmões e da respiração.
O poder aquisitivo do cheirador de rapé se refletia no tipo de boceta que ele portava. Os menos abastados as tinham em madeira entalhada, ou mesmo em papel machê; os mais remediados as possuíam em porcelana ou madrepérola; e o mais afortunados, em prata ou mesmo ouro. É assim até os dias de hoje e para sempre o será : quanto mais dinheiro o cara tem, melhor a boceta que ele traz consigo.
Eu, em menino, com uns 6 ou 7 anos talvez, vi a minha primeira boceta. Na verdade, não era minha. Era do avô de um amigo meu da rua, um vizinho. Há quarenta anos, um pouco mais, era costume as pessoas levarem suas cadeiras para as calçadas e conversarem até a hora de se deitar; já havia televisão, mas ainda em preto e branco e, se muito, existiam 3 ou 4 canais.
Então, o avô desse meu amigo se sentava escarrapachado em sua espreguiçadeira e dava umas boas dumas fungadas em seu rapé ao longo da noite, sempre tendo o cuidado de bem fechar a bocetinha depois de usá-la. A dele era em prata, herança de seu bisavô, homem de posses cujo patrimônio as gerações subsequentes de filhos e netos deram conta de liquidar. Ele nunca deixava nem o neto nem eu nem ninguém pôr a mão em sua bocetinha de prata. O velho tinha grande apego e afeição pela sua boceta.
Eu mesmo só fui tocar, apalpar, abrir e cheirar o conteúdo da minha primeira boceta quase duas décadas depois, mas isso já é outra história.
Agora, como a boceta, a de rapé, tomou também o significado de buceta, a do cacete, eu não sei. Dei até uma pesquisada, mas nada encontrei sobre a origem da correlação. Só posso supor que seja porque ambas são feitas para levar fumo.
Seja como for, tanto a boceta como a buceta sempre foram artigos de grande procura, sempre despertaram muita ambição e inveja. É tão grande a afeição do ser humano pela boceta que alguns que deixam extraviar o seu benquerer chegam a anunciar em jornais de grande circulação e prometer gratificação a quem encontrar e devolver a sua boceta perdida.
O anúncio abaixo é 1875, ano em que o jornal "O Estado de São Paulo" foi fundado, inicialmente com o nome de "A Província de S. Paulo". 
Já pensaram se a moda pega? Ou melhor, se a moda volta? É comum vermos cartazes colados em postes com fotos de bichos de estimação, com telefone para contato, dizendo que a criança que era dona do bichinho está triste e inconsolável, uma promessa de gratificação e a informação, "atende pelo nome de..."
Imaginaram? Se começa a aparecer fotos de bocetas coladas em poste, com telefone do dono, dizendo que o mesmo está triste e inconsolável, uma promessa de gratificação e a informação, "atende pelo nome de... xaninha, florzinha, peixinha, crespinha, cheirosinha, greta, periquitinha, fofinha, gininha etc"?
Pãããããããta que o pariu!!!

domingo, 1 de novembro de 2015

Nós Também Já Fomos Uma Brasa, Jotabê

Se tem um cara que sabe escrever muito bem sobre a velhice - e não a fica chamando de terceira idade, melhor idade, feliz idade e outras escrotices - é o Jotabê, autor do excelente e espirituoso blog Blogson Crusoe.
Ele fala da velhice como o que ela é, algo natural, diz das óbvias limitações que ela traz, mas não faz isso em tom choroso ou de autocomiseração, faz de maneira leve, imprime - não sei se é intencional - um tom meio professoral, de quem dá conselhos aos mais jovens - 99,9% dos que o leem, segundo estimativa dele próprio -, eu nem diria conselhos, Jotabê dá umas dicas, uns toques, sem aquele ar solene de bronca e cobrança.
Acredito que Jotabê não goste da velhice (teria que ser louco ou masoquista para), mas vive em paz com ela, e isso é mostra de grande sabedoria, viver em paz com a decadência física, a qual eu, talvez 15 anos mais novo que JB, já começo a experimentar. Jotabê - tenho certeza - não é daqueles velhos "garotões", que se metem a usar bermudões, boné, andar pela ruas com seu iphone no ouvido ou baixar o nível de seu pensamento e vocabulário para falar a linguagem dos jovens. Está cheio de velhos por aí - e mais ainda de velhas - que fazem esse papel ridículo, eu conheço um punhado.
Em uma de suas últimas postagens, Pandores (esqueci : Jotabê é o rei do trocadilhos), ele escreveu :
"Para ajudar, vou abrir a caixa de pandores da velhice para você (gostou dessa, Marreta?): o futuro que te aguarda, meu amigo, não é nada róseo; é cinzento, enfumaçado e quente pra caralho. Por isso, trate bem o seu corpo. É sério isso!
Porque, como disse a Marina Lima, “só vou te contar um segredo”: as descobertas e novidades da infância e da juventude surpreendem, alegram, fascinam, encantam ou excitam. Na velhice, entretanto, as novidades e descobertas que restaram apenas deprimem, irritam, angustiam, entristecem ou causam medo. E não há Pandora que consiga consertar isso."
Concordo com você em quase tudo, Jotabê. Ficamos menos sensíveis às novidades, aos encantos. É que a vida é como qualquer outra droga, fazem-se necessárias doses cada vez maiores para que o mesmo efeito de antes seja atingido. Não é que nós, velhos, sejamos incapazes de nos surpreender, de nos encantar, ou, isso é que não, de nos excitar. Só precisamos de estímulos mais selecionados, mais refinados, temos paladares mais exigentes, nos tornamos mais contemplativos, e ser contemplativo não é ser triste ou amargurado.
Só não concordo com a parte, e não há Pandora que consiga consertar isso. Há sim, Jotabê. Uma boa boceta de Pandora pode ser a cura para todos os males que ela mesma contém aprisionados : é o princípio do homeopatia,  Similia similibus curantur, semelhante cura semelhante. A questão é ter coragem para abrir a boceta de Pandora. Se eu tenho? Não, já estou velho demais para isso.
Toda essa lenga-lenga - a minha e a sua, Jotabê - some frente ao talento e ao poder de síntese da música de Adoniran Barbosa, ou seja, à simplicidade própria de todo gênio, que versou de forma irretocável sobre o assunto em sua canção, Já Fui uma Brasa. Demonstrando que não existe velho broxa, o que existe é brasa mal assoprada. Se assoprarem, podemos muito bem acender de novo.
abraços, JB.
Já Fui Uma Brasa 
(Adoniran Barbosa)
Eu também um dia fui uma brasa
E acendi muita lenha no fogão
E hoje o que é que eu sou?
Quem sabe de mim é meu violão
Mas lembro que o rádio que hoje toca iê-iê-iê o dia inteiro,
Tocava saudosa maloca

Eu gosto dos meninos destes tal de iê-iê-iê, porque com eles,
Canta a voz do povo
E eu que já fui uma brasa,
Se assoprarem posso acender de novo

(declamado):
É negrão... eu ia passando, o broto olhou pra mim e disse: é uma cinza, mora?
Sim, mas se assoprarem debaixo desta cinza tem muita lenha pra queimar...

sábado, 31 de outubro de 2015

Entre Umas e Outras

É o vinho,
Remédio para a vida?
Curativo?
Atadura?
Lenitivo?
Cataplasma?
Anestesia?
Não!
O vinho
É a mais covarde
Das tentativas de suicídio.

Gosto do Pato Fu

"Pode ser numa canção
Pode ser no coração
Eu só quero ter você por perto"

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

31 de Outubro - O Dia do Saci

Hoje é o Dia do Saci!!!
Vassoura é o caralho! Que, por aqui, essa merda só serve para a dura faxina e para pôr atrás da porta e espantar visita de sogra e cunhado! O Saci viaja é de redemoinho, que é muito mais elegante.
Chapéu cônico e pontiagudo é a puta que o pariu! Que, por aqui, cone ou é casquinha de sorvete ou sinalizador de estrada! O Saci usa é um estiloso barrete vermelho, quase que uma boina francesa. Très chic!
Travessuras ou gostosuras é o cu da mãe! Que travessura é coisa de nerd estadunidense! O Saci faz é molecagem, é sacanagem, é filha da putice! Não tem marshmallow nem varetas de alcaçuz, que isso são guloseimas dos sobrinhos obesos do Tio Sam! Com o Saci, tem é pipoca que vira piruá, tem é pé do moleque pra quebrar os dentes da banguelada brasileira, tem é assobio agudo na orelha, e as varetas de alcaçuz, vocês podem muito bem imaginar onde o Saci lhes enfiaria!
Esqueletos tremilicantes não metem medo por aqui; ou vão dar mais sustância à sopa, ou vão para o bucho dos vira-latas.
O Jack Cabeça de Abóbora aqui vira purê. Primeiro, o Saci come-lhe o rabo, que é só para mostrar quem manda no matagal. Depois, arranca-lhe a cabeça e a leva para a prima Cuca, que a joga em seu caldeirão, faz com ela um cozido condimentado com asa de morcego, rabo de lagartixa, guizo de cascavel, ovos de caranguejeira, carapaça de escorpião e de lacraia e bastante pimenta cumari e a serve em convescote para o Curupira, o Caipora, o Boitatá, a Mula-sem-cabeça, o Lobisomem, a Iara, o Mapinguari etc. Uma grande festança de antropofagia!
Raloim é a puta que o pariu! Que hoje é o Dia do Saci, baby!
O Saci é o elemental brasileiro por excelência. É o Tiririca de gorro e cachimbinho. É o Macunaíma de uma perna só.
Pau no cu do Raloim e dos seus simpatizantes. Raloim aqui em casa não entra nem bate à porta ou toca campainha. Tem duas coisas que eu não atendo de jeito nenhum. Uma é Testemunha de Jeová querendo vender revistinha e outra é molecada retardada fantasiada de Raloim.
Viva o Dia do Saci e os que lutam e prezam por sua preservação, com solene referência feita e destaque dado a duas assossiações : a SOSACI (Sociedade dos Observadores de Saci) e a ANCS (Associação Nacional dos Criadores de Saci), essa última localizada na cidade paulista de Botucatu, que visa a reprodução da espécie em cativeiro para depois devolvê-la à natureza - sim, amigos, o Saci é um mito em vias de extinção, sobretudo depois da introdução de espécies exóticas invasoras, as do Raloim.
O presidente da ANCS deu, inclusive, uma esclarecedora e elucidativa entrevista sobre a associação no Programa do Jô - podem ir ver no youtube, está lá -, na qual fiquei sabendo do óbvio e sempre insuspeitado : sim, tem Saci mulher. Saci-fêmea ou Sacia, sei lá, só mesmo a Dilma Rousseff para nos dizer a correta semântica de gênero, ela que grafou para sempre nos dicionários o vocábulo "presidenta" e introduziu nos compêndios de taxonomia a espécie Mulheres Sapiens.
Seja como for, Saci-fêmea ou Sacia, sempre falo do Dia do Saci aqui no blog, mas nunca me referi à dona onça do coisa ruinzinha, como diria Tia Nastácia. E se a ela nunca me referi, confesso, foi por pura ignorância de sua existência. Como são tempos da ridícula, aporrinhante e politicamente correta discussão de gêneros e como não quero ser chamado de machista pelos patrulheiros de plantão, apresento-lhes hoje, nessa seleta data, a mulher do Saci. A Sacia.
Grande Saci!!!! Escondendo o ouro!!! Com uma Sacia dessa, só mesmo dizendo o que o Saci sempre lhe diz : fica de três!!!
E dá-lhe fumo, Saci!