sexta-feira, 11 de março de 2016

Mimetismos (20)

Sério que essa eu jamais poderia ter imaginado : margarina sabor manteiga.
O ser humano está a se tornar cada vez mais fraco e covardão, cada vez mais artificial, mais fake. O cara adora o gosto da manteiga, do torresmo, da gordura a bordear o bife etc, morre de vontade de se lambuzar todo, sonha que está a comer tudo isso, mas está mais preocupadinho com o colesterol, com os triglicérides, com a barriguinha saliente do que em promover uma orgia em suas papilas gustativas, do que se lançar sem paraquedas nem rede proteção a uma gozosa ceia, do que enfiar o pé na cornucópia.
E aí, começa a viadagem em nome do politicamente correto, da estética do limpinho, da comida saudável. E aí, o bundão passa a comer só franguinho grelhado e esturricado, substitui o torresmo da pança do porco pelo torresmo de soja (sim, existe essa merda) e, agora, troca manteiga pela margarina sabor manteiga. 
O ser humano moderno e politicamente correto não se arrisca, é um cuzão. Quer o prazer sem o risco inerente a ele. E nem se toca de que grande parte do prazer está justamente no risco que ele traz a reboque.
Valha-me Rei Roberto Carlos, tudo o que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda.
O ser  humano está se transformando em gente com sabor de androide, de manequim de vitrine de loja. O que anda em falta ultimamente é de gente com sabor de gente. Não tem mais. Já vem tudo light ou diet de fábrica. Já nascem todos sem sal nem açúcar.
Não me surpreenderei se, em breve, for lançada no mercado a buceta com sabor de cu!!!
Pãããããta que o pariu!!!!

quinta-feira, 10 de março de 2016

Mulher das Antigas

Peitão, coxão, bucetão cabeludo... 
E sem TPM, por favor

É Blog!, por Jotabê

Um excelente texto do José Botelho, do Blogson Crusoe. Valeu pela parte "cerveja barata (mas boa)", Jotabê.
"Se seu avô, pai (ou mãe), irmão, primo, sobrinho, filho, neto, inimigo, agente funerário ou até mesmo seu ursinho de pelúcia apresentar mudanças de comportamento, fique atento. O mesmo aviso vale para seu marido, esposa, pegante, ficante, ricardão ou ricardinha. Be careful. 
Passe a observar se essa pessoa começou a ficar irritada sem motivo aparente, se está mais impaciente, inquieta, agressiva ou pela-saco. Pode ser que esteja usando drogas.
Depressão, angústia, insônia, isolamento ou surgimento de comportamentos inadequados (tipo cheirar peido debaixo do cobertor), tudo isso é motivo de preocupação. Especialmente se acontecer com seu inimigo. Sei lá, pode ser que ele, surtado, queira assassiná-lo com a faca Ginso de sua (dele) avó ou com o sabre de luz de seu (dele) sobrinho.
Observe os olhos: se a pupila estiver frequentemente dilatada e o som do Tim Maia seja ouvido com frequência, pode ser cocaína. Se os olhos estiverem vermelhos, cantarolar às vezes "gosto muito de você, leãozinho...", o reggae for o estilo musical preferido e um enorme apetite se manifestar na forma como o sujeito ataca o isopor da sua (sua) caixa de cerveja, deve ser maconha.
É motivo maior de preocupação se os olhos estão vermelhos e uma expressão vazia e apalermada tomar conta de seu (dele) rosto, pois podem ser fruto de noites mal dormidas passadas em frente ao computador. Aí a coisa pode estar feia mesmo, pois seu chegado pode ter criado um blog. E se o olhar, de repente, ficar vidrado e o sujeito não notar nada do que estiver rolando à sua volta, meio catatônico, sinto muito, meu senhor e minha senhora, aí realmente fodeu de vez, pois ele deve estar pensando em algum novo post para divulgar no blog. 
Se fosse um tipo de droga normal, bastaria encaminhar o viciado a uma clínica de reabilitação e comer o cu do traficante (pensando bem, essa última atitude pode não ser uma boa ideia, pois é a sua - sua mesmo - integridade que poderá ir pro saco. E sem malícia, por favor!).
Para que não reste nenhuma dúvida sobre o diagnóstico correto, algumas perguntas precisam ser respondidas. - Acordou às 5h10min e, em vez de virar para o canto e dormir de novo, voou para o computador? É blog;
- Parou de assistir os programas do Ratinho, Sônia Abraão ou João Cléber? É blog;
- Deixou de tocar "você é luz, é raio, estrela..." no violão que ganhou no bingo? É blog;
- Não quis renovar a assinatura de Caras? É blog, claro; 
- Aumentou o consumo de tequila, cerveja barata (mas boa) ou leite com toddy? Bloguíssimo!
Um blog é uma droga de abordagem quase espiritual, deve ser entendido como se o coitado que o criou tivesse sido abduzido, sugado para dentro do monitor do micro. E nem sempre há remédio para esse mal. 
A única esperança real de cura é se um dia o viciado, olhos fixos na tela, depois de se decepcionar pela milésima vez com a quantidade ínfima de visualizações do último post,  exclamar - "Ainda vou acabar com essa merda!"
Carinhosamente, com o auxílio de dois seguranças de boate parrudões (de terno preto, por favor) e de um taco de basebol bem manejado, diga para ele: - "Não olhe para a luz!"

terça-feira, 8 de março de 2016

O Cansaço do Torturador

Antes,
Bastava eu fornecer a cerveja
E uns tira-gostos
(uns amendoins
umas azeitonas,
uns cubos de provolone
e meu cérebro vivo à vinagrete)
Que a madrugada trazia o resto.
Trazia a Lua
As fadas
As rimas
Os voos
As musas circulavam feito putas
Em volta da minha mesa
Com suas bucetas ruivas de sangue
Em busca de um trago.

Perseverante,
Ou sem mais o quê,
Sem outro caminho
(que perseverança só é um nome pomposo que se dá à tacanhez aliada à falta de opções),
Continuo com minha mesa posta,
A cerveja quase gelada,
Umas oferendas salgadas e gordurosas,
E meu cérebro à escabeche.

Porém,
Meus satélites desgarraram-se,
Atraídos por melhores ofertas de emprego,
Por Júpiteres maiores;
Minhas fadas madrinhas
Enfadaram-se de mim,
Me excomungaram;
Meus voos,
Todos cancelados,
Por mau tempo,
Por overbooking;
As musas
Cansaram-se da caridade,
Largaram a batina,
Abandonaram o mecenato,
São todas,
Hoje,
Top models internacionais
A soldo de Midas.

E minha madrugada
Tornou-se em madrugada qualquer,
Igual a de qualquer outro.
Deixou de ser vicinal estrada,
Uma fuga do pedágio,
Outra estada.
Deixou de ser outra estação
De trem
De rádio
Climática.
Passou a ser meramente
Um outro hiato
Um vácuo entre vácuos.
O minuto de descanso
Entre um round e outro.
Os dez minutos para o cafezinho,
Para voltar ao arado,
Ao escritório,
Minimamente são ao sanatório.
Melhor :
Os dez minutos para o cafezinho do torturador,
Que meu descanso é isso,
É a pausa,
É o cansaço do torturador.

Camisa de Vênus e o Dia Internacional da Mulher (Repostagem ampliada)

O ano era 1986 e o Camisa de Vênus, liderado por Marcelo Nova, lançava o primeiro LP do rock nacional gravado ao vivo, o Viva. Entre as músicas clássicas do grupo, uma inédita : Sílvia, o relato de um corno, cheio de palavrões e revolta contra sua mulher infiel.
A gravação do disco foi realizada no Dia Internacional da Mulher, Marcelo Nova não deixou passar o ensejo e discursou sobre. Com vocês, Mr. Nova e a homenagem ao Dia Internacional da Mulher :

“Hoje tem um monte de… Hoje tem um monte de mulher na platéia.  Legal.
Hoje é o dia… Hoje é o dia internacional da mulher.
E nós queremos aproveitar a oportunidade porque o Camisa de Vênus tem sido acusado de ser uma banda machista, mas não é nada disso. Na verdade, o Camisa de Vênus é a única banda heterossexual do planeta. Né?
E então a gente não podia  deixar de dizer que nós adoramos as mulheres. Sem você, nós não viveríamos em hipótese alguma. Inclusive eu acho que mundo só vai consertar o dia que a mulher tomar o poder, bicho. Tem mais tato, tem mais sensibilidade, tem mais carinho.
Agora que eu já enchi o ego de vocês, podem arriar as calçolinhas e vamos lá.”
 
Silvia
(Camisa de Vênus)
Você me diz que não tá mais saindo
Mas eu desconfio que cê tá me traindo

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Vive dizendo que me tem carinho
Mas eu vi você com a mão no pau do vizinho

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Todo homem que sabe o que quer
Pega o pau pra bater na mulher

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Vive dizendo que tá numa boa
Mas veio pra São Paulo dar massagem em coroa

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Você jura e repete que me tem amor
Mas eu lhe flagrei com um vibrador

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Todo homem que sabe o que quer
Pega o pau pra bater na mulher

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Quando eu chego em casa com essa cara de otário
Vejo o zelador, tá dentro do armário

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Eu acho mesmo que você não tem jeito
Pois até o leiteiro anda mamando em seu peito

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Todo homem que sabe o que quer
Pega o pau pra bater na mulher

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!
Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Ô sua puta!

sábado, 5 de março de 2016

Vida em Brim Cáqui

Toda segunda-feira,
Bolsa de brim cáqui
(de carteiro)
A tiracolo,
Andando de passos leves
Para não acordar os galos,
Olhando 
No céu
Os últimos hematomas da madrugada
Se dissiparem da tez do novo dia,
Ele entra na loja de conveniência do posto de combustíveis
(a atendente - cara fresca, maquiada e alegre - até já sabe)
E paga por uma lata de cerveja
A que estiver mais barata
Das de 473 ml.
Abre o lacre já na rua
A caminho do trabalho
Dá uma talagada
Ergue-a
E brinda aos cinco dias
Ditos úteis
(para quem?)
Que se põem como obstáculos
De uma corrida de percurso indefinido
Sem revezamento
E sem pódium
Nem medalha 
Nem bandeira
Nem hino no final :
" -Vamos lá, semana de merda!"

Passa os outros dias
Em sobriedade
Em dormência, em latência
Em total inutilidade :
Só cumprindo seu dever
Em total abstinência e esquecimento de si próprio.

Toda sexta-feira,
A mesma bolsa brim cáqui,
Feita em espinho em seus ombros caídos,
Os passos pesados
De atoleiro,
De piche derretido
(os galos indo se deitar que se fodam),
Olhando 
No céu
As primeiras varizes roxas da noite,
Os primeiros vermelhos,
Os anúncios do mênstruo da madrugada,
Ele entra na loja de conveniência do posto de combustíveis
(a atendente - esgotada, maçãs do rosto desidratadas, com prazo de validade expirado - até já sabe)
E paga por uma lata de cerveja
A que estiver mais barata
Das de 550 ml.
Abre o lacre já na rua
Dá uma emborcada
Ergue-a
E brinda
(Porque o Inferno, sabendo de nossa fragilidade, e necessitando de nossa força, nos dá férias, nunca alforria):
" - Bem-vindo, fim de semana de merda!"

quinta-feira, 3 de março de 2016

Lois Lane

Lois Lane
Ganhou o coração
E os testículos do Super-Homem.
Por ela,
O Super-Homem,
Que, como todo homem,
Pensa com a cabeça do seu superpau,
Despojou-se de sua capa,
Da insígnia do "S" - o seu brasão de família -,
De seu peito de aço;
Renegou sua herança paterna,
O seu DNA de Marlon Brando.
E agora
Lois Lane
Dorme feliz e profundamente,
Abraçada,
De conchinha a ele.
Realizada por tê-lo
A andar de cuecas frouxas pela casa,
À mesa do cotidiano e amargo café da manhã,
No sofá todas as noites
A ver futebol 
E a entornar cerveja,
A se ocupar das contas de água, luz, telefone e tv a cabo,
A procurar por ofertas
E a enfrentar filas nos supermercados,
A fodê-la rapidamente
Uma ou duas vezes por semana.
Lois Lane
Prefere ter o fraco e patético Clark Kent só para si
Do que compartilhar um semideus
Com a humanidade.
Lois Lane
Não é diferente
De toda e qualquer mulher.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Viva Meu Joelho Podre

Meu joelho dói
Arde
Queima
Lateja.
É a menor das minhas dores
Mas é a única da qual posso me queixar.
A única à qual
Vez ou outra
Dão ouvidos
Ainda que poucos
Ainda que moucos.
É a menor das minhas dores
Com a qual poderia viver calado.
Mas é a única
Que aparece no raio-x
Na ressonância
Na tomografia
Na capa da revista.
É a única 
Que é reconhecida
Pelo CRM, pela OMS.
É a única para a qual
São receitados
Recitados
Prescristos 
Em nome de Esculápio e de Cristo
Atenções
Zelos
Condescências
Dipironas
Diclofenacos
Paliativos.
É a menor de minhas dores,
Com a qual poderia andar normalmente
A tiracolo
Pegar o ôniubs
Ir pagar as contas
À feira
Cuidar da casa
E do filho. 
Mas é a única que me dá 
Três dias de atestado médico
Três dias de indulto
Três dias de mar do Caribe com margheritas
Três dias de gente.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Nocauteado em Pé

Meu sono 
Tem sido como certas putas que amei.
Quando me vê impedido
De com ele me deitar
Me abraça
Me enlaça
Me enreda
Faz-se de mole água em dura pedra
Enfia a língua
E sussurra tentações em minha orelha.
E, meu amigo,
Mal há café que baste 
Para me manter
Minimamente acordado no ringue
Ganhando tempo e fôlego
Para aguentar até o soar do gongo ao fim do dia
(e sempre perco por pontos).
Quando me vê, porém, 
À noite,
Livre de minhas atribulações
Descansado e disposto
De pau em riste
Pronto para passar 
Umas boas 8 horas com ele em minha cama
Sem tirar de dentro
Sem levantar nem para mijar
Ele some atrás de outros olhares
Se esquiva e se esconde pelos bares
Toma de outros copos
De outros corpos
Adormece em outros lares.
Então, meu amigo,
Mal há cerveja que chegue
Para me pôr a nocaute.

Cães Sem Dentes

O aluno joga a culpa no professor;
O professor, no aluno;
O tecnocrata formado em pedagogia, no sistema
E a caravana passa...

Todo Castigo Pra Corno é Pouco (22)

O bom e velho Jotabê sugeriu a canção "Tereza da Praia" como tema de mais um TCPCP. Tal obra-prima, de Tom Jobim e Billy Blanco, escudada por Lúcio Alves e Dick Farney, é realmente um dos hinos da cornagem nacional. 
Dois amigos se encontram e começam, cada um, a contar vantagem sobre sua mais recente conquista amorosa, de seu mais fresco abate. Eles vão descrevendo suas atuais musas e os detalhes são coincidentes demais. Ao fim da canção, do duelo poético e musical, eles concluem que estão comendo a mesma mulher, a Tereza da Praia. Pensam que eles brigam? Que saem na porrada? Que puxam a navalha? Nada disso. Decidem que a Tereza é da praia, não é de ninguém. Decidem compartilhá-lha irmanamente. 
É o corno solidário. É o corno comunitário. É o corno que acha preferível comer uma lata de doce de leite em dois do que uma lata de bosta sozinho.
Agradeço, como sempre, imensamente, a sugestão, caro Jotabê. Acontece que ela já foi publicada no Todo Castigo Pra Corno é Pouco (13). Mas para você não sair sem chumbo, postarei aqui a "Tereza da Praia" dos tempos modernos, dos infelizes tempos modernos. 
É uma versão bem-humorada da canção feita pelo saudoso humorista Serginho Leite, uma paródia adaptada ao mundo gay. Sim. Gay também é filho de deus. Gay também é corno. Viado também leva chifre. É a divertidíssima "Reginaldo da Praia". 
Reginaldo da Praia é um surfista de olhos verdinhos, bastante puxados, cabelos loirinhos, todo parafinado. Reginaldo da Praia, assim como sua precursora Tereza o era de Lúcio Alves e Dick Farney, é alvo da disputa entre Cauby Peixoto e Agnaldo Timóteo; melhor, de Aguinaldo Peixoto e Cauby Timóteo. 
Serginho Leite se caracteriza dos dois, veste-se feito uma pizza mezzo Cauby mezzo Timóteo e vai se alternado para a câmera conforme interpreta um ou outro. Genial.
Reginaldo da Praia (Serginho Leite)
(Timóteo canta) :
Cauby,
Arranjei novo amor no Leblon,
Que corpo bonito,
Que pele morena,
Que amor de surfista,
Amar é tão bom
Tão bom...
(Cauby canta) :
Timóteo,
Ele tem o nariz levantado,
Os olhos verdinhos,
Bastante puxados,
Cabelos loirinhos,
Todo parafinado...?
Esse é meu Reginaldo da Praia
(Timóteo canta) :
Se ele é seu, ele é meu também
(Cauby canta) :
Mas o verão passou todo comigo
(Timóteo canta):
Mas o inverno pergunta com quem?
(As duas bichonas entoam um dueto):
Então, vamos Reginaldo na praia deixar
Aos beijos do sol
E abraços do mar
Reginaldo é da praia
Não é de ninguém
Não pode ser seu
E nem tampouco seu também
Reginaldo é da praia
Não é de ninguém
De ninguém
De ninguém...

Para ver o vídeo, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Amigo de Leite é Bezerro

Ah, a genialidade das grandes sacadas condensadas nas pequenas frases... e eu, aqui, insistindo em meus quilométricos textos, que não têm mais nada a dizer.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Jogo da Cabra-Cega

Faz tempo que vejo o mundo turvo
Embaçado
Embaralhado
Em vultos sobrepostos
Cheio de zumbidos nas imagens
Feito duas ou mais estações de rádio
Que teimam em ocupar a mesma frequência no dial.

O horizonte
Os prédios e os monumentos
As árvores
Os itinerários dos ônibus
Os produtos nas prateleiras do mercado
Os outdoors
Os cães vadios e os gatos saltimbancos
As notícias dos jornais
Os pássaros nos fios
Os mendigos nos meios-fios
A peituda que passa pela outra calçada
O asilo de velhos
O saldo na tela do caixa eletrônico
A comida no fogão
O japonês da quitanda em meio à sua paleta de frutas e verduras
A minha letra no papel...
Turvo
Tudo turvo.

Sentei-me às máquinas do oftalmologista.
Tudo bem, elas disseram,
Para perto, um leve grau
Para longe, nada a consertar
Tudo certo com a visão além do alcance
Podemos melhorar sua leitura de um livro
Nada a fazer quanto à sua leitura do mundo,
Diagnosticaram as máquinas do oftalmologista,
Que nem olhou para mim
Que nem me viu
Que só escreveu em seu receituário o que lhe ditaram as suas máquinas
Que só estava ali como intérprete
Como interface
Como boneco de ventríloquo
Só porque as máquinas ainda não tem mãos
Nem títulos e diplomas de doutor em suas paredes.
Desculpei-os, o oftalmologista e suas máquinas
Eles entendem muito de olho
Mas nada do que ele vê.

Só quando tudo descuida de ser visto
É que vejo tudo com nitidez
De madrugada
Na semiescuridão
Quando as formas
Descansam de suas arestas
E passeiam desproporcionais
Com suas vestes velhas, largas e puídas
Roupas de ficar em casa;
Quando as cores
Descansam de suas alegorias
E passeiam monocromáticas
Com seus arco-íris de sombras
Largam mão de sua pavonice;
Quando as máscaras
Descansam dos rostos que juraram servir
E passeiam de cara lavada
Marcham em blocos
Em carnavais de Veneza.
Mas a madrugada dura pouco pra mim
Ando com pouca resistência às altas horas
Baixa tolerância à privação do sono
Também à longas vigílias
À vida, de forma geral.

Posso arrancar meus olhos
Mas não posso eliminar a estática e a interferência
O zumbido
O sentiria por outras vias
Por cada um de meus poros.
Por que Édipo arrancou os próprios olhos?
Por acaso, um cego não é capaz de continuar a comer a mãe?
Até mais fácil, não vendo que é sua mãe.
Por que Édipo não arrancou o pau?
Falso arrependimento
Mise-en-scéne
Viadagem de grego.
Posso trocar minhas lentes
Lapidar a laser meus cristalinos
Mas não posso trocar de mundo.

E o filho da puta do oftalmologista
Nem me viu.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Um Poema Quase Feito, Bukowski

eu vejo você bebendo numa fonte com suas
minúsculas mãos azuis, não, suas mãos não são minúsculas
elas são pequenas e a fonte é na França
de onde você me escreveu aquela última carta e
eu respondi e nunca mais obtive retorno.
você costumava escrever poemas insanos sobre
ANJOS E DEUS, tudo em caixa alta, e você
conhecia artistas famosos e muitos deles
eram seus amantes, e eu escrevia de volta, está tudo bem,
vá em frente, entre na vida deles, não sou ciumento
porque nós nem nos conhecemos. estivemos perto uma
[vez em
New Orleans, metade de uma quadra, mas nunca nos
[encontramos,
nunca um contato. assim você seguiu com os famosos,
[escreveu
sobre os famosos, e, claro, descobriu que os famosos
estavam preocupados com a fama deles – não com a jovem e
bela garota em suas camas, que lhes dava aquilo, e
[que acordava
de manhã para escrever em caixa alta poemas sobre
ANJOS E DEUS. nós sabemos que Deus está morto, eles nos
[disseram,
mas ao ouvi-la eu já não tinha certeza. talvez
fosse a caixa alta. você era uma das melhores poetas e eu
disse para os editores, “publiquem-na, publiquem-na,
[ela é louca mas é
mágica. não há mentira em seu fogo”. eu te amei
como um homem ama uma mulher que jamais tocou,
[para
quem apenas
escreveu, de quem manteve algumas fotografias. eu poderia
[ter te
amado mais se eu tivesse sentado numa pequena sala
[enrolando um
cigarro e ouvindo você mijar no banheiro,
mas isso não aconteceu. suas cartas ficaram mais tristes.
seus amantes te traíram. criança, escrevi de volta, todos os
amantes traem. isso não ajudou. você disse
que tinha um banco em que ia chorar e que ficava numa
[ponte
e a ponte ficava sobre um rio e você sentava no seu banco de
[chorar
todas as noites e descia o pranto pelos amantes que
te machucaram e te esqueceram. escrevi de volta mas não
[obtive
qualquer retorno. um amigo me escreveu contando do seu
[suícidio
3 ou 4 meses depois de consumado. se eu tivesse te
[conhecido
provavelmente teria sido injusto com você ou você
comigo. foi mesmo melhor assim.