quarta-feira, 17 de julho de 2019

Vade Retro Ré no Quibe

Uma vez ao ano, às vezes nem isso, mas quando sim, geralmente nas férias de julho, lavo minha bolsa de lona cáqui, que carrego a tiracolo com os apetrechos de meu triste e desprestigiado ofício.
Desocupada, lavada e a secar no varal, o seu conteúdo, espalhado por sobre a mesa da sala, estava a atrapalhar a faxina iniciada por minha esposa, também de férias.
Recebi peremptória ordem de dar um jeito àquilo. Aos livros, cadernos e folhas avulsas, fiz-lhes uma gaveta no fundo de uma cadeira, posta com o assento no tampo da mesa e pernas ao ar para permitir a limpeza do piso. Às canetas, vi uma garrafa plástica vazia de água mineral (500 ml) e, com ela, fiz-lhes um estojo improvisado.
Gostei do resultado. Achei-o interessante. Contemplei-o por um momento.
Então, a ficha me caiu : eu tivera uma ideia de um designer de móveis e interiores. Pãããããta que o pariu!!! É o complô internacional para o embichamento planetário tentando pegar o Azarão.
Eu acabara de criar um objeto-conceito, que traz em si, e ao mesmo tempo, a fusão do elemento utilitário com o decorativo; a função mecanicista e pragmática do porta-canetas exercendo também a função artística do adorno.
Eu acabara de conceber uma peça dessas vendidas em modernosas lojas de decoração, tipo Tok & Stok, uma peça dessas expostas em salões de utensílios arrojados e pra frentex. Minha criação só não é mais vanguardista porque poucas coisas são mais antigas do que a expressão "pra frentex". Tanto que só o Jotabê entenderá.
Pra piorar : além do utilitário em união com o artístico, percebi que minha criação também atendia e comungava com as prementes necessidades ambientais do planeta, por se tratar de um exercício de reuso da embalagem. Meu porta-canetas se revelou utilitário, artístico, ecológico e autossustentável.
Pããããããta que o pariu!!! Foi por pura sorte que meu cu não começou a piscar, que minhas pregas não começaram a bater palminhas. 
Mas, por vasta experiência, sei que não posso me fiar na sorte. Olhei fixo para o porta-canetas. Tentei espanar as desmunhecantes ideias da minha cabeça. Concentrei-me em vê-lo como um simples e prático objeto. Um porta-canetas das antigas.
Foi então que, olhando para as canetas encapsuladas na garrafa - as tintas em suas cargas, germens de textos e de poemas à espera de viris reprodutores e de hábeis parteiras que os fecundem e os deem à luz do papel em branco -, ocorreu-me que elas são como óvulos congelados em nitrogênio líquido nos bancos de uma clínica de fertilização. Tanto podem explodir em cores e vida como continuarem ali, inertes, para sempre. Para sempre apenas possibilidades, potenciais.
Então, mais uma vez, a ficha me caiu : eu tivera uma ideia de artista de Bienal.
Uma ponte transgressora entre o prosaico e o acadêmico, a minha obra; entre o aterro sanitário e o vernissage. A desconstrução da água mineral enquanto recurso natural monetizado. A revalorização da caneta como obra de arte em si, como fonte geratriz, não apenas como um vetor, como ferramenta condutora de grandes clássicos. Os bastidores feitos em palco e protagonista.
Pãããããta que o pariu!!!! Embichei de vez!!!
Gostei do porta-canetas improvisado, é bem verdade; mas por via das dúvidas e em prol da integridade de minhas velhas pregas, assim que a bolsa secar, as canetas voltarão para um de seus bolsos internos. De onde nunca deveriam ter saído.
Vade retro ré no quibe!!!

terça-feira, 16 de julho de 2019

Nós Vamos Invadir Sua Praia

Há mais de vinte anos que eu vinha habilmente me safando, até que meus ardis e artifícios se esgotaram e eu me vi, sim, na semana passada, jogado na praia.
Na verdade, não sei se foram meus talentos houdinescos de escape que se extinguiram, ou se a minha disposição para pô-los à prática. Com a idade, perdi a disposição para tudo. Até para me opor em fazer o que não gosto. Dou cada vez menos importância à prevalência ou ao subjugo de minhas vontades e convicções. A testosterona em baixa não mais me premia com doses cavalares de júbilo e euforia ao fim de uma batalha. Tornou-se mais satisfatório, simplesmente, ceder. Fazer, do que brigar para não. É o caminho rumo à entropia. É a podridão, meu velho.
Mas voltando à vaca fria, vi-me jogado na praia e, devo admitir, não foi tão ruim quanto os meus prognósticos. Meus problemas não são exatamente em relação à praia e ao mar. Não me enjoa o balanço e o vaguear hipnótico das ondas. Não me incomoda a areia por entre os dedos dos pés. Gosto de andar descalço, por quilômetros. O que não suporto são o sol e, sobremaneira, gente. Não tolero ficar livremente exposto ao sol por mais de cinco, dez minutos. Aglomerações humanas me afligem, dão-me claustrofobia.
Por que você detesta tanto ficar exposto ao sol?, perguntou-me, há tempos, uma amiga num churrasco da faculdade à beira de uma piscina. Porque ele queima, respondi. E por que detesta tanto gente? Porque vivem me fazendo perguntas deste tipo.
Contudo, como eu disse, foi bem melhor que o esperado. Dentro do cenário e do contexto em que estava inserido, pode-se dizer que tive sorte. E explico.
É inverno no Brasil. Enquanto que, no sul e no sudeste, inverno é sinônimo de baixas temperaturas, no norte e nordeste - para onde fui - significa chuva, muita chuva. Não esfria por lá. Chove.
Choveu em todos os dias em que lá fiquei. Chuvas curtas. Rápidas. Após as quais era perfeitamente possível andar pela praia e entrar na água, sempre morna. A chuva cessava, mas o sol, tirante na terça-feira, não se abria a plena potência. Ficava toldado por oportunas e misericordiosas nuvens. Mantinha-se apenas o mormaço. Assim, um de meus problemas, o sol, foi amenizado e, a reboque, também o outro, gente. Com a ausência do exibicionista astro-rei, um menor número de pessoas acorria às praias.
A experiência mais traumática foi, justamente, a da terça-feira, dia de mais sol e mais gente, na tal Praia do Francês, a maior concentração demográfica de vendedoras ambulantes do planeta, como já retratei no meu homônimo poema-homenagem a este aprazível local.
A mais compensadora, no sábado. Dia com menos sol e menos gente, na Praia do Toque (nada a ver com o famigerado e temido exame), no pequeno povoado de São Miguel dos Milagres, distante quase duas horas da capital Maceió.
Por lá chegamos às nove da manhã. Chovia. Uma chuva que deus Posseidon mandava. Pouco antes das dez horas, a chuva deu trégua, mas durante todo o tempo em que por lá fiquei, até as três da tarde, não surgiu nesga de sol.
Mar calmo. Ideal para crianças e pais paranoicos. Superfície lisa. Sem ondas. Um espelho. Não um verde espelho, uma vez que um tanto quanto embaçado e turvo pela recente chuva. Mas todos os espelhos não são mesmo embaçados para e em quem a presbiopia avança a olhos vistos? Praia plana. Bela pista de caminhada. O melhor : uma boa diversidade de vida a ser observada em suas areias. Animal e vegetal.
Conchas de moluscos de variadas formas, cores e tamanhos. Nenhuma, contudo, exuberante o bastante para se guardar de recordação. As que havia em maior profusão eram as conchas dos búzios. Muitas, mesmo. Pensei em recolher um tanto delas, abrir meu terreiro e me dedicar à divinatória e picareta arte do jogo de búzios. Espanei, logo, a ideia para longe. Ainda ouriços-do-mar com espinhos roxos e caranguejos Maria-Farinha. Até um pequeno caranguejo-ermitão. Este crustáceo não tem lá uma carapaça própria muito resistente, que lhe garanta efetiva proteção. Assim, invade, ocupa e toma posse de conchas vazias de moluscos mortos. Conforme ele vai crescendo, vai se mudando para conchas maiores. Certeza de que este bicho é integrante do MTST, o Movimento dos "Trabalhadores" Sem-Teto. Companheiro de luta do safado do Paulo Boulos.
A atração maior ficou por conta do reino vegetal. Uma ocorrência de espécies de algas rara de se ver em um único local. De três das principais divisões, pardas, verdes e vermelhas. Deu para matar saudade das minhas aulas de Botânica I - Sistemática, dos tempos da faculdade. O povo odiava sistemática. Pura decoreba. Chaves e mais chaves de classificação. Tudo em latim. Na época, eu sabia mais latim que o Papa.
Das algas pardas, as feófitas, o gênero Sargassum; das verdes, as clorófitas, o gênero Caulerpa; das vermelhas, as rodófitas, o gênero Gorgonia; colocadas da esquerda para a direita na foto abaixo.
Depois, ainda achei um belíssimo e viçoso exemplar da famosa alface-do-mar, do gênero  Ulva - Ulva, não vulva. Lavei-a na própria água do mar e a comi, ante os olhos atônitos da minha esposa, que exprimiam um misto de asco e de preocupação de que eu passasse mal e lhe desse mais trabalho que o já de costume. Disse-lhe apenas : ulva, eu como de qualquer jeito.
Mas que porra é essa, Azarão?, poderão protestar os leitores machos das antigas do Marreta. Prefere tirar fotos de plantinhas do que de gostosas? Na verdade, não. Contingências, meus caros, contingências. 
Primeiro que tirar fotos de gostosas me traria sérias - e dispensáveis - aporrinhações conjugais. Segundo que isso de gostosas em praia é pura lenda. História de pescador. Só existem duas praias no mundo onde as gostosas abundam e apeitam : na das novelas da Globo e na da série S.O.S Malibu, peitões das antigas. Fora estas, tudo lenda.
Elas até existem, as gostosas. Porém, escassas e de aparições rarefeitas.
Para cada gostosa, uma procissão de barangas paquidérmicas com bundas, pernas e barrigas que são um combinado de gelatina com queijo suíço.
Para cada gostosa, duas com cicatriz de operação de vesícula, quatro com de apêndicite, três com de cesárea e uma com perna mecânica.
Para cada gostosa, uma excursão da terceira idade repleta de velhinhas coquetes, sacudidas e doidas para rosetar.
Ou seja, não vale a tocaia à espera da gostosa passar.
Vejo mais gostosas no supermercado perto de casa no qual me abasteço do que numa praia. Na sombra e com ar-condicionado. Aliás, para o tal me dirigirei agora. Ainda estou em férias laborais, mas os afazeres domésticos nunca entram em recesso. As obrigações do lar e o almoço de amanhã urgem. Vou lá, comprar uns legumes, uns filés de frango, umas latinhas e ver umas gostosas.
Tem lá uma promotora da marca Vigor, com um uniforme azul e branco, bem colado ao corpo, de acrobata de circo, que fica num balcão servindo torradinhas com requeijão - o tradicional e o cheddar - para velhos babões, que é um espetáculo, ou, como dizia o poetinha Vinicius, uma catedral de mulher.
Pããããããta que o pariu!!!!!

segunda-feira, 15 de julho de 2019

City Tour

Praia, prédios históricos, feiras de artesanato...
Prédios históricos, feiras de artesanato, praia...
Feiras de artesanato, praia, prédios históricos...

No fim,
Nada passa disso :
Areia, poeira de homens e de construções e arte de mau gosto.

Tudo perecível,
Felizmente.

domingo, 14 de julho de 2019

Praia do Francês

                                                                                                                                              O poema do beco
                                                                                               Que importa a paisagem, a Glória, 
                                                                                                     a baía, a linha do horizonte?
                                                                                                        — O que eu vejo é o beco
                                                                                                                (Manuel Bandeira)
Camarão assado e embalado em saco plástico,
Sardinha na brasa,
Chapéus de palha, viseiras,
Capa impermeável para celulares,
Pau de selfie,
Brincos de pena.


Água de coco,
Chinelo de dedo,
Protetor solar,
Colar de conchinhas,
Apanhador de sonhos,
Cangas e miçangas.
 

Milho verde,
Churros e queijo coalho,
Canecas, bonés e camisas de times,
Caipirinha no coco,
No abacaxi
E cerveja - tudo a preço de zona.
 

Acarajé,
Cocada preta e branca,
Picolé de mangaba, graviola e de cachaça,
Camisetas "lembranças de ...",
Saídas de banho de renda,
Tererê,
Tapioca.
 

Conserva de pimenta,
Manteiga de garrafa,
Garrafas com paisagens de coqueiros, veleiros e pôres-do-sol desenhadas em areias coloridas,
Licor de jenipapo,
Castanha-de-caju,
Tatuagem de henna, de fênix, do Bob Esponja, da Nossa Senhora Aparecida. 


Há quem diga
Que consegue ver verdes mares.
Eu só vejo
Um fúnebre desfile carnavalesco de vendedores ambulantes,
Tristes, peles curtidas pelo sol, sorrisos banguelos de dar vontade de chorar. 


Desfilando um samba-enredo atravessado, disritmado, sem nenhuma originalidade
De nossa patética história às avessas:
Índios vendendo, agora, espelhos e outras quinquilharias
Para os descendentes dos europeus.

sábado, 6 de julho de 2019

RECESSO PARLAMENTAR

Há vinte e dois anos que venho me esquivando com sucesso, mas agora se acabaram tanto a minha sorte quanto os meus subterfúgios : vou ter de encarar uma semana na praia.
Não gosto de praia. Nem como paisagem. Nem como fundo de tela de computador. Que dirá, então, como espaço de convívio humano, de interação e de lazer. Não gosto da proximidade dos corpos, da intimidade obrigatória, da promiscuidade forçada, do exibicionismo.
Não gosto de praia. Aliás, nunca entendi o fascínio que o mar exerce sobre o grosso das pessoas, uma imensidão de água, e só. Talvez o fato da vida ter surgido no mar explique um pouco tal atração, talvez a procura inconsciente e atávica pelo velho berço, pelo útero primevo, sei lá. Ou, o mais provável na minha opinião, as pessoas gostam tanto de praia pelo mesmo motivo que gostam tanto de Coca- Cola : publicidade maciça e subliminar. Indiscutível que a praia é item de consumo dos mais desejados.
Prefiro montanhas. Isolamento. Frio. Pessoas vestidas, andando a uma distância civilizada umas das outras. Aquecendo-se cada qual à órbita de seu próprio sol, de sua própria praia com lareira.
Mas a esposa gosta e há tempos que não vai, e o filho não conhece e anseia por.
Então, vamos a la playa! Não digo onde para evitar o assédio dos paparazzi.
Não bastasse, viagem de avião. Com duas ou três escalas no caminho. Me cago de medo de avião. E quanto mais escalas, mais pousos e decolagens, mais possibilidades de extravio de bagagem, mais chances de dar merda, mais eu me cago. Sempre tenho comigo a máxima que garante a "segurança" do avião : é mais pesado que o ar, funciona com motor à explosão e foi inventado por um brasileiro. E querem mesmo que eu fique tranquilo? 
Mas vamos a la playa
Tentarei me divertir. Pelo menos, não atrapalhar a diversão dos outros. Ver quem gostamos se divertindo, não é, per si, uma diversão à parte? Um prazer não egoísta? Só pra variar?
Mas eu não gosto mesmo de praia. Lembro de que, quando eu tinha meus 10, 12 anos, meu pai era sócio do SESC e, por vezes, nas férias de janeiro, íamos a uma colônia de férias em Bertioga. A colônia, além da praia bem em frente, oferecia várias outras atividades, gincanas, salas de jogos, quadras esportivas, uma pequena sala de cinema e até uma biblioteca. Eu pouco via a praia, só sob intimação e coerção paterna/materna. Preferia ficar na biblioteca. Lembro de ter lido Vinte Mil Léguas Submarinas, Viagem ao Centro da Terra e Moby Dick, além da coleção quase completa de Asterix, nessas minhas idas à praia.
Eu ir à praia é a mesma coisa que viado ir à zona. Não temos muito o que fazer por lá.
Ficaremos por lá de sete a catorze do corrente mês. É o recesso do Marreta. Se lá pelos dias quinze, dezesseis, dezessete, eu não der notícias aqui é que o avião caiu.
E não esperem de mim presentes nem lembrancinhas, camisetas com o nome da cidade e aquelas esculturas de aves feitas com conchinhas.
Pãããããããta que o pariu!!!

sexta-feira, 5 de julho de 2019

07 :50 h

Sacada do meu apartamento.
Meu ponto de encontro preferido comigo mesmo.
07:50 h, uma vez que não mais vigor tenho para a exigente e ninfomaníaca madrugada
(a manhã se contenta e se satisfaz com um café passado no coador de pano e com um beijo na testa).
Abro o segundo latão de uma - dizem - puro malte,
Aproveitar da melhor forma que posso o pouco tempo que tenho.
Ainda hoje, passar nos correios, no mercado, na quitanda, na padaria, no banco, pegar filho na escola.

Chega,
No lado oposto da rua à minha sacada,
O dono de uma empresa de vendas, reparos, manutenção e assistência técnica de impressoras para abrir a loja.
É o mundo inteiro a acordar e eu sem sono para voltar a dormir.
Rapaz novo, bem-sucedido
Sempre bem-disposto.
Odeio as pessoas que estão sempre bem-dispostas,
Elas têm sempre algo a esconder.
Tênis da moda, calça jeans da moda, camiseta polo da moda, corte de barba da moda.
Trocou sua caminhonete da moda, seu blindado urbano, por um novo utilitário da moda, um SUV da Jeep.
Branco, capota preta, comprido.
Pegando na rua
As vagas de estacionamento de uns três fuscas.
Entra na loja e volta com um balde de água e sabão e uma flanela.
Fica por vinte ou mais minutos
Só limpando, 
Lustrando,
Acariciando,
Punhetando o seu comprido SUV.

Eu tomando meu terceiro latão,
Ouvindo Edvaldo Santana em meu velho toca-CDs.
Pernas ao alto,
Cruzadas em cima da mesa empoeirada,
Vejo que não tenho limpado sequer os cantos das minhas unhas dos dedões do pé;
Nem lixado meus calcanhares rachados.

Olho para o cara enclausurado na moda,
Olho pro Jeep, brilhante, possante, com computador de bordo, wi-fi, muito mais inteligente do que quem "pensa" que o conduz,
Olho pro cara prestando vassalagem à máquina, ao verniz da por fora bela viola.
E sorrio.

Sorrio em íntima reconfirmação:
Não trocaria
Os acúmulos pretos de sujeira nos cantos dos meus dedões dos pés
Pela vida, pelas posses e pelos poços de ilusões movediças desse cara.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Grimbergen, a Santa Cerveja

A busca pelo Santo Graal? Pela Arca da Aliança? Pelos evangelhos perdidos de Judas e Maria Madalena? Pelo Sagrado Prepúcio do Menino Jesus? Desvendar o terceiro segredo de Fátima? Porra nenhuma!
Que toda essa lenga-lenga religiosa-profética-transcendental-apocalíptica só se presta é a embromar o povão, a manter sempre tementes os leigos nos assuntos do Senhor. Os verdadeiramente iniciados e letrados nos meandros e nas linhas tortas do Criador - sacerdotes e outro clérigos - sabem, e não é de hoje, que há buscas e cruzadas muito mais urgentes e divinas, muito mais caras à causa da humanidade e das suas coisas do espírito.
Há mais de 10 anos, um grupo de quatro monges belgas se dedica a uma messiânica jornada de tradução de fazer corar de vergonha e de inveja o próprio Champollion. Empenham-se em decifrar os apócrifos Manuscritos dos Mar Morto, os devotados monges belgas? Porra nenhuma! Assim como a Inês, o Mar é morto. Já era. Ponto final. Os monges belgas, por suas vezes, bem vivos.
Os abnegados monges conseguiram resgatar, traduzir e reconstituir a receita original da cerveja formulada em 1128 d.C. pelos monges da Abadia de Grimbergen e que, afirmam, foi a precursora de todas as conceituadas cervejas belgas da atualidade.
Os monges, contudo, não trabalharam sozinhos nesta santa tarefa. Tiveram a ajuda de um sem-número de cristãos e desinteressados voluntários, que doaram parte de seu valioso tempo à igreja nesta empreitada arqueológica. Sim, meus caros. Voluntários. Porque se fosse para dar de comer aos que têm fome, para limpar suas chagas e feridas e acolher e agasalhar os seus órfãos, os padres se veriam sem pai nem mãe. Mas para fabricar cerveja, os monges tiveram de distribuir senhas e trabalhar com turnos e escalas. Que o ser humano, verdade incômoda seja dita, só segue os seus próprios desígnios; os de Deus, quando forem coincidentes.
Ainda assim, árduo foi o caminho em busca da cerveja perfeita : “Já tínhamos os livros com as receitas antigas, mas ninguém as conseguia ler. Estava tudo em latim antigo e neerlandês antigo. Então trouxemos voluntários e passámos horas nos livros e descobrimos listas de ingredientes das cervejas produzidas nos séculos passados, os lúpulos usados, o tipo de barris e de garrafas, e até uma lista das cervejas produzidas”, explicou o padre Karel Stautemas.
A cerveja dos monges, que recebeu o mesmo nome do mosteiro, Grimbergen, será produzida e engarrafada em escala industrial pela cervejaria Carlsberg. Porém, para não desagradar aos paladares mais modernos e afrescalhados, não será reproduzida na íntegra de sua receita, sofrerá pequenas modificações : “Não me parece que as pessoas agora gostassem do sabor da cerveja feita na época; a cerveja não tinha grande sabor, era como pão líquido”, explica Marc-Antonie Sochon, perito da Carlsberg responsável pelo fabrico da cerveja medieval. Pão líquido? O meu sem manteiga, por favor.
A cerveja Grimbergen é oferecida em várias versões, a Blonde Belgian, a Rouge, a Ambrée etc. A estrela da abadia, o carro-chefe do mosteiro é a Grimbergen Triple d’Abbaye, com 10,8% de graduação alcoólica e envelhecida por cinco meses em barris de whiskey, à moda do que seja fazia nos anos 1500.
Abaixo, o monge Karel Stautemas, dando uma soberba de uma talagada, com a graça de Deus. Tomando da água que a pomba do Espírito Santo não bebe.

Pondo Pra Quarar

E quem disse que lá o sol não bate?

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Vegana Que Eu Gosto (4)

Pela mais absoluta falta de assunto e, mais ainda, de inspiração, que esta é uma dádiva da juventude, volto com minha sangrenta e malpassada cruzada contra o vegetarianismo/veganismo, que, como bem me disse o Jotabê, que vive com sua linguiça no fumeiro, são o politicamente correto das dietas.
Hoje, no entanto, não me deterei - e nem a vocês - em longas explanações de cunho evolucionista. Hoje, deixarei um outro grande pensador e filósofo falar por mim : o cantor compositor brega Falcão.
Na canção autobiográfica "A cura da homeopatia pelo processo macrobiótico", Falcão nos dá um emocionante testemunho de vida. Conta-nos de sua pouca saúde, de seu debilitado estado de ânimo, de quando era vegetariano - ele vivia triste e encrisiado -  e da transformação sofrida quando passou a se empanturrar de carne - ficou bonito, lindo e joiado, alegre, gordo e corado.
Quem gosta de folha é elefante, coelho, burro e asno! Quem gosta de alpiste e de gergelim é passarinho! Quem gosta de nabo, berinjela, mandioca é veado!

A Cura da Homeopatia pelo Processo Macrobiótico
(Falcão / Tarcísio Matos)
Eu vivia triste, encrisiado
Moribundo, empanzinado
Cheio de peitica e um caé lascado
Vivia destiorado.

Mas não era pra menos, eu só comia
Folha de pau, raíz e vagem
Mel de abelha e gergelim
Arroz integral
Bife de soja, pepaconha
Chá de boldo e própolis.

Mas eu mudei minha alimentação
Graças ao Mané Bofão
E passei a comer seguindo a sua orientação.

Eu mudei minha alimentação
Graças ao Mané Bofão
E passei a comer seguindo a sua orientação.

Panelada, buchada
Sarrabulho, tripa de porco
Fuçura, linguiça, rabada, miúdo
Bife, passarinha, mocotó, carne de lata
Chouriço, tutano, sarapatel, mão de vaca.

Hoje eu estou mudado
Bonito, lindo, joiado
Alegre, gordo e corado
Pareço um artista.

Hoje eu estou mudado
Bonito, lindo, joiado
Alegre, gordo e corado
Pareço um artista.

Para ouvir a música, é só clicar aqui, no meu poderoso e carnudo MARRETÃO

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Vegana Que Eu Gosto (3)

Como foi preanunciado ao fim da postagem Vegana Que Eu Gosto (2), a inclusão da carne nos hábitos alimentares do Homo sapiens não apenas deu mais volume e vigor e pujança ao nosso cérebro, à nossa massa encefálica; trouxe também maior envergadura e potência ao nosso membro viril, à nossa massa fálica, o famoso caralho.
Temos não só o maior cérebro entre os primatas, temos também o maior cacete da categoria.
O gorila tem um pênis com média de três centímetros de comprimento; os chimpanzés, de seis. E você, meu amigo minidotado, reclamando de cueca cheia dos seus dez, onze centímetros. Que ingratidão para com a Mamãe Natureza.
Ressaltei, porém, ainda ao fim da postagem anterior, que não fora o consumo de qualquer carne - mais até o desejo ardente de querer continuar a consumi-la - que nos conferiu uma pica GG em relação aos nossos primos macacos, mas sim o consumo sem moderação de uma carne especial e específica: a carne mijada, a famosa carne de buceta.
Acontece que no processo de evolução, o esqueleto humano passou por várias adaptações que acabaram por nos conferir a nossa postura bípede. Uma dessas adaptações fez com que a pélvis, que é larga, achatada, em forma de bacia e em posição quase que paralela ao solo nos outros primatas, assumisse, nos humanos, uma conformação mais estreita e compacta, para melhor suportar o peso todo sobre apenas duas patas, em forma de taça e com uma angulação de quase 90º com a horizontal.
Nas fêmeas humanas, estas mudanças fizeram com que a entrada da vagina, antes de fácil acesso, sempre exposta e arreganhada, sempre virada para a lua, na postura quadrúpede, fosse para baixo do corpo, em região mais resguardada e recôndita. Só pelo novo posicionamento já não seria qualquer piroquinha que, agora, adentraria fácil o salão de festas. Mas não foi só. A profundidade do canal vaginal também foi drasticamente alterada : quadrúpede, anterior à pélvis, era cova rasa; bípede, posterior à pélvis, profunda gruta. Não seria mais qualquer piroquinha que conseguiria bem depositar o esperma no fundo da vagina e assegurar boas chances de fecundação.
A partir daí, a seleção natural começou a agir. Homens de maiores pênis conseguiam copular mais facilmente do que os de pinto pequeno e, igualmente, suas cópulas tinham uma eficiência maior de fecundação. Os pirocudos deixavam mais descendentes, que, por sua vez, herdavam o material genético bem dotado dos pais e também iriam copular mais e mais eficientemente que os descendentes dos de pinto pequeno, e assim por diante, ad infinitum. Ao longo do tempo, o material genético para rola grande foi sendo selecionado dentro de nossa espécie.
Voltando, agora, à questão inicial - por que os machos humanos são os mais pauzudos de todos os macacos? -, a resposta é simples, clara e evidente : porque a fêmea humana tem, igualmente, o maior bucetão da paróquia. Com a postura bípede e o aprofundamento do canal vaginal, nós, machos humanos, tivemos que correr atrás do prejuízo. Ou era aumentar o pau, ou parar de comer a carne mijada. Ou era aumentar o pau, ou era perder terreno para as zebras, os rinocerontes e os gnus. A carne foi o que nos bem dotou. A carne mijada.
Por isso, amiga vegana/vegetariana (ou amigo vegano/vegetariano, vai saber, né) se você um cacete para chamar de seu aí de seus 15, 16 ou mais centímetros, agradeça ao consumo humano da carne. Ou vai me dizer que o pau do seu macho é feito de quê, de tofu?
Alguns outros teóricos evolucionistas dizem, ainda, que o bipedalismo, ao mesmo tempo em que tornou a vagina em uma região de mais difícil acesso, expôs totalmente o pênis. Antes, o pênis ficava meio que escondido pelas nádegas, pelas pernas, pela barriga; uma vez em pé, passou a só dar ele, ele passou a ser o centro das atenções, todo lá exposto e balouçante. Uma vez visível, o pênis passou a atrair a atenção das fêmeas e se tornou objeto e critério de seleção na hora do acasalamento. As fêmeas eram atraídas pelos pênis maiores e, assim, mais uma vez, a seleção natural atuou no sentido de privilegiar o material genético dos bem dotados. De mais a mais, não dava pra ficar andando lá pelas savanas de nudismo a exibir uma minhoquinha no meio das pernas.
E o bicho cresceu. Cresceu pra caralho. Cresceu tanto que, hoje em dia, na maioria dos homens, ele se tornou em um ser independente, com vontades e caprichos próprios, uma segunda cabeça pensante. Tão emancipado de nós que, por vezes, acaba nos colocando em indevidos lençóis e, consequentemente, em maus lençóis com nossas monogâmicas fêmeas.
Deem-nos um desconto, queridas mulheres, a evolução é um processo lento, ainda estamos nos acostumando aos nossos grandes pênis, ainda estamos aprendendo a dominá-los. Mas ou era isso, a possibilidade de eventuais deslizes, ou era uma piroca de três centímetros.
Deem-nos um desconto, amores de nossas vidas, ou era isso, a eventualidade de fortuitas escorregadelas, ou a piroquinha do Davi, do Michelângelo.
Deem-nos um desconto. E crédito infinito.

sábado, 29 de junho de 2019

Uma Questão de Método

Deus
- dizem os que Nele creem -
Escreve por linhas tortas.
Displicentemente.
Aos trancos e garranchos.

O Demônio,
Por sua vez,
Metodicamente,
A tudo anota,
Em cadernos de caligrafia.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Vegana Que Eu Gosto (2)

Dentre os primatas, somos a espécie com o maior cérebro, com o maior volume craniano, em relação à massa corporal. Um gorila macho adulto pode atingir uma massa corporal equivalente a quase três machos humanos de compleição mediana, de uns 70 kg; seu cérebro, no entanto, é quase três vezes menor que o nosso - 1.200 centímetros cúbicos nossos contra os 470 do gorila.
O que teria nos dotado de um cérebro de porte único e muito superior aos de nossos primos mais próximos, os primatas? O que teria nos tornado em verdadeiros Kids Bengala encefálicos?
Estudos recentes - ao fim da postagem colocarei o link para eles - apontam para um caminho inequívoco : o que possibilitou o desenvolvimento de nossos cérebros ao nível em que hoje se encontram foi uma combinação entre a criação de técnicas de processamento dos alimentos (corte e cozimento) e a introdução de alimentos mais proteicos e calóricos em nossa dieta, no caso, a carne.
O gorila e outros de nossos aparentados têm dieta essencialmente herbívora, alimentam-se de folhas - cruas, aos montes, em grandes pedaços e quantidades. Não é a maneira mais eficiente do mundo de se obter energia e matéria-prima para o organismo.
Um gorila chega a passar de oito a dez horas do dia a mastigar e a engolir grandes folhas; depois, já com bucho cheio, mais três, quatro horas para digerir e processar tudo aquilo - a celulose é uma substância rígida, de difícil mastigação, digestão e absorção pelo organismo. Todas as custosas e poucas proteínas e energia assim obtidas são direcionadas para o básico da sobrevivência do gorila, sua atividade muscular, construção e funcionamento. Não sobram energia nem matéria o suficiente para um incremento do cérebro do bicho. E ainda que sobrassem, ao gorila não sobraria tempo para explorar um cérebro maior, para exercitar a máquina.
Com o desenvolvimento das ferramentas de corte, o ser humano passou a dividir o alimento em menores porções, o que facilitou a mastigação, diminuindo o tempo despendido nesta atividade; com o cozimento dos alimentos, eles passam por várias transformações químicas, que os deixam não só mais tenros, mas também mais acessíveis ao nosso equipamento enzimático, eles se tornam mais fáceis de serem digeridos, absorvidos por nossas células e, enfim, convertidos em energia, diminuindo, além do tempo da mastigação, também o de processamento; finalmente, com a introdução da carne à sua dieta, o ser humano juntou, aos menores tempos de mastigação, digestão etc, um alimento com teores proteico e calórico muito superiores aos dos vegetais. 
Somados os três eventos, temos : um tempo absurdamente menor gasto com mastigação, digestão e absorção e uma quantidade de proteínas e de energia dantes inimagináveis.
Com mais proteínas, nosso cérebro pode melhor se construir, ganhar estrutura, massa, volume - sim, ou você acha que o nosso cérebro é feito do quê, caro vegetariano/vegano, de brócolis? Com mais energia, a nova máquina pode ser posta a funcionar a todo o vapor - nosso cérebro é um sumidouro de energia, chega a tomar para si, quando estamos em repouso, 20% de toda a produção do organismo. Com o tempo que nos sobrou, pois não precisávamos mais ficar a ruminar toneladas de folhas, nos pusemos a brincar com ele, a criar novas ferramentas e a desenvolver mais intrincadas relações sociais - o segredo da hegemonia humana no planeta não vem de nossa pouca força física, vem da habilidade de nos organizarmos em grandes bandos. 
As relações sociais exigem o exaustivo e coordenado trabalho de milhões de neurônios. Têm ideia da complexidade cerebral exigida para vivermos em sociedade? Da beleza da imensa quantidade de conexões sinápticas necessárias para contarmos uma simples e inofensiva mentirinha social e cotidiana a bem da política da boa vizinhança? Que outro animal elabora mentiras? A mentira é a base da sociedade humana. Não nos suportaríamos sem ela, desfaríamos o bando, e, sozinhos, fisicamente ridículos que somos, seríamos trucidados por outros animais.
Se você, vegetariano/vegano, tem hoje uma caralhada de amigos em suas redes sociais, agradeça ao seu cérebro hábil que lhe permite coordenar estas relações, seu cérebro construído à base de carne.
Não tivéssemos desenvolvido técnicas de processamento de alimentos nem adicionado a carne à nossa dieta, possivelmente ainda teríamos o cérebro muito similar em tamanho ao dos outros primatas, ou, ao menos, de nossos ancestrais já humanos, o Australopitecus, o Homo erectus etc, e viveríamos ainda de forma muito parecida à deles. Provavelmente, nem a escrita teríamos desenvolvido.
E talvez fôssemos mais felizes assim, mas esta não é a questão. A questão nunca é a felicidade - também um conceito meramente humano, criado pelo nosso cérebro bem dotado. A questão aqui é que toda a civilização, toda a história da humanidade, todos os seus avanços (e retrocessos), todas as suas conquistas científicas e tecnológicas que moldaram nossa maneira de hoje viver (que remodelaram o planeta), que nos garantem um maior conforto, uma maior expectativa de vida e, sobretudo, uma esmagadora supremacia sobre toda e qualquer outra forma de vida conhecida, só foram possíveis graças ao turbinamento, à otimização de nossos cérebros. E esta otimização só foi possível a partir da introdução da carne na dieta humana.
Temos dentes próprios para cortar e perfurar a carne, os incisivos e os caninos. Temos sucos digestórios repletos de enzimas para digerir a carne, a pepsina e outras proteases. Até o tamanho de nosso intestino é adequado ao correto tempo de trânsito da carne dentro de nós.
Se toda a humanidade, a partir de hoje, adotasse o vegetarianismo/veganismo, em alguns milhares de anos, perderíamos muito de nosso volume cerebral enquanto espécie. Em poucos milhares de anos, nossos cérebros seriam devolvidos ao nível - se com muita sorte - de um Homo habilis. Em poucos milhares de anos, estaríamos de volta ao registro pictórico nas paredes das cavernas. Em poucos milhares de anos, estaríamos de volta aos sons guturais : Ah! Ah! Uh! Uh!
Encerro, ou quase, a postagem com as falas de um pesquisador e de um poeta, atividades humanas só possíveis devido aos nossos diferenciados cérebros carnívoros.
Primeiro, o pesquisador, Manuel Domínguez-Rodrigo, da Universidade de Madrid : “Eu sei que isso soará horrível para os vegetarianos, mas a carne nos tornou humanos”;
Por fim, o poeta, o poetinha Vinicius de Moraes :
"Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem mais aprouver fazer dieta. 
 

Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas pêras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas. 
 

Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Omnívoro; dêem-me feijão com arroz 
 

E um bife, e um queijo forte, e parati
E eu morrerei, feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão."

Abaixo, da esquerda para a direita, um cérebro humano e um cérebro vegetariano/vegano
link prometido no início da postagem, para maiores referências :

cenas dos próximos capítulos : não é somente nosso cérebro, nossa massa encefálica, que é o maior entre os primatas; os nossos paus, os nossos caralhos, também são, proporcionalmente, os maiores entre a macacada. O gorila é todo fortão, todo saradão, mas tem uma pingolinha de anjo barroco, parece um desses caras de academia. O motivo de nossas rolas serem as mais avantajadas entres os primatas? Também o consumo de carne, porém, um tipo muito específico de carne. Mas isto será assunto de uma próxima postagem, a Vegana Que Eu Gosto (3), que encerrará esta ignominiosa trilogia.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Dedada no Olho do Cu

Não posso dizer que sou um aficionado por esportes de combate, pois não conheço a fundo os princípios, os fundamentos, as regras, quais os intervalos de peso de cada categoria, muito menos como são marcados os pontos durante a luta, mas me considero um apreciador destas justas modernas.
Prefiro o boxe. Porém, em tempos áridos de grandes pesos-pesados, de um Cassius Clay, de um George Foreman, de um Joe Louis, de um Rock Marciano, de um Mike Tyson e, até mesmo, de grandes pesos-pesados da ficção, feito um Rock Balboa, ou um Adilson Rodrigues Maguila, tenho quebrado o galho e me conformado com as lutas de vale-tudo, hoje conhecido como MMA.
Mesmo não sendo, como declarado, um expert, também não sou um total néscio. Sei do básico. Sei que, por exemplo, não é tudo que vale no vale-tudo. Chute no saco e dedada no olho são golpes proibidíssimos, verdadeiros tabus do esporte.
E dedada no olho do cu? O regulamento do MMA nada diz sobre.
Assim, como todo bom brasileiro, que arruma um jeitinho pra tudo, o lutador Jorge Kanella se valeu desta brecha legal para, primeiro, sacanear o seu oponente, e, segundo, para tentar passar pela guarda do inglês Alfie Davis e reverter a desvantagem em que se encontrava na peleja.
Jorge Kanella aproveitou a brecha legal e enfiou o dedão do pé na brecha do cu de seu adversário.
Kanella, mais afeito ao estilo wrestling, à luta em pé e à trocação franca de golpes, irritou-se com a insistência do adversário em se manter deitado de costas no chão, em postura defensiva mais a la jiu-jitsu, uma tática que poderia ser comparada à retranca no futebol, ou seja, o cara nem ataca nem sai de trás da moita.
O impaciente Kanella não teve dúvidas : meteu-lhe o hálux, o famoso dedão do pé, no cu.
O inglês reclamou : "Se você está em pé com alguém no chão, não vai direto assim. Você aprende que não é legal". Está certíssimo o inglês. Os dois lutadores nunca haviam se encontrado antes, foi a primeira luta dos dois, o primeiro encontro. Se fosse já um segundo ou terceiro encontro, vá lá, ou se Kanella tivesse tentado antes uma chave de perna, uma chave de braço, um mata-leão, uma guilhotina, um cheiro na orelha, uma cafungada no pescoço, o inglês estaria mais à vontade e talvez não reclamasse tanto da atitude do brasileiro.
A manobra ilegal e lasciva de Kanella não passou despercebida ao árbitro, que lhe puniu com o decréscimo de um ponto em sua contagem.
Davis saiu da luta reclamando de dor no períneo. Engraçado. O cara leva cotovelada no nariz, tem o supercílio dilacerado, leva chute nas costelas, tem a cabeça quase arrancada por socos de mais de 100 kg de peso e sai reclamando da dorzinha de uma dedada no cu? Firula. Frescura do inglês. Que acabou vencendo a luta por pontos e em decisão unânime : 29 a 27.
A um jornalista, o brasileiro Jorge Kanella teria declarado em off : "Perdi a luta, mas ele perdeu as pregas."
Pããããããããta que o pariu!!!! 

domingo, 23 de junho de 2019

O Velho Herói

O herói está velho.
Caquético, patético
E senil,
Dizem as despeitadas mocinhas indefesas de plantão
(também já não tão mocinhas assim)
Às quais o herói não mais socorre,
Não mais lhes dá o prazer de sua presença,
Ignora as suas urgências.

O velho herói,
Dizem estas desdenhosas, 
Hoje,
Só gosta de vestir seu uniforme às escondidas,
Quando ninguém está a vê-lo.
Uniforme roto,
Difamam estas que foram preteridas pelo velho herói.
Seu uniforme,
Maledizem,
Uma ceroula frouxa e furada nos fundilhos.

O herói está velho. É fato.
Senil?
Nada mais fake news.
O velho herói está mais poderoso que nunca,
Achou quem valha a pena
Verdadeiramente defender.

"We don't need another hero",
Grita uma antiga canção ianque.
O velho herói é que não precisa da humanidade.
Só precisa de um único protegido.
A cada velho herói basta uma Lois Lane.

O velho herói
Hoje, só atende a um único chamado,
Ao grito de "pai"
Que o filho lhe lança de madrugada de dentro de seu pesadelo.
Atende, hoje, o velho herói
A um único chamamento,
Ao bat-sinal do choro febril de seu rebento.
O velho herói não outorgou
A salvaguarda de seus filhos a outros heróis
- avós, tios e outros assemelhados de boa vontade -
Para continuar com seus egoístas saltos pelos telhados e pelas madrugadas.

Outra calúnia :
Não, o velho herói não veste seu uniforme às escondidas,
Tampouco antepasto de traças sua égide e seu emblema se tornaram.
O velho herói não veste mais o seu uniforme
(ele está mais brilhante e bem passado do que antes),
O faz de cobertor, de casamata, de casulo para o filho,
Para aninhar e confortar o seu sono aquecido e tranquilo.

O velho herói olha para o seu uniforme feito em afeto
E não consegue lhe imaginar um melhor uso.
Não consegue conceber um maior ato de heroísmo.