Há, no entanto, grande hiato em mim.
Não há de ser nada.
É só que ando triste de novo.
Nada daquela tristeza vulcânica.
É uma tristeza mais calma, mais mansa,
Tristeza quase mecânica,
Tristeza de quem não entende a piada,
De quem os pés se recusam a entrar na dança.
Nada daquela tristeza de prantos em avalanche,
É tristeza preguiçosa
Tristeza de lágrimas sem som e sal
Como uma infiltração em parede velha.
Nada me assalta
Nada me assalta
Há, apesar disso, grande inexistência em mim.
Não há de ser nada.
É só que ando meio sozinho de novo.
Nada daquela solidão oceânica.
É solidão fininha, zumbido de pernilongo,
Solidão que se ajeita ao nosso lado, no sofá,
Pra comer da nossa pipoca.
E fica quieta, sem dizer palavra
Feito cachorro deitado aos nossos pés.
Fidelíssima.
Nada daquela solidão de infartar sismógrafos
É só aquela solidão de louça suja na pia.
De encolher e encalhar sob as cobertas com o peito encolhido.
Solidão de quem se descobre mais querido do que imaginava,
Solidão de livro não-publicado
Solidão como tantas outras.
Não há de ser nada.
Não há de ser nada.
Mas essa noite será mais uma daquelas
Em que o sono demorará a chegar.
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