terça-feira, 21 de julho de 2020

Indesculpável

As minhas mãos não são,
Nunca foram hábeis
Em acarinhar outra mão,
Em afagar outra face,
Em fazer cafuné,
Em se deixar deslizar por pescoço,
Nuca e coluna alheios
A suscitar suspiros, estremecimentos e frenesis.

Igualmente,
Não são,
Nunca foram hábeis
Em dar porradas,
No pugilato,
Em esmigalhar narizes e romper supercílios.

Os mais sinceros e delicados carinhos
Que já fiz,
As mais devotadas e incondicionais paixões
Que já despertei,
Os mais profundos gozos e apneias
Que já extraí
Deram-se pela minha escrita.
Minhas cartas, meus poemas, recados dentro de livros, bilhetes sob a xícara de café.

E os olhos mais inchados
E os corações mais rasurados
E as feridas mais indesculpáveis,
Também.

5 comentários:

  1. Você me traduziu na quase totalidade.

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  2. Outra poesia nesse nível e te darão um lugar na Academia Brasileira de Letras.
    Se me permite, publicarei no meu blog. Me impactou, de certa forma.

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    1. (Adendo fora do tema. Viu que seu blog agora aparece escrito "Aviso de conteúdo confidencial", naquela página de "estou ciente e quero continuar"? Ou eu nunca me atentei para essa palavra, "confidencial", ou mudaram recentemente e agora tu está na mira da Gestapo).

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  3. A Marreta do Azarão22 de julho de 2020 às 09:26

    "Nós somos todos marionetes, Laurie... A diferença é que eu enxergo as minhas cordas." ???

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  4. Pelo visto catou o velho exemplar de Watchmen para reler "O Relojoeiro"...

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