sábado, 6 de dezembro de 2025

Pequeno Conto Noturno (107)

02h19.
Sem saber se ainda por prazer, por gosto, ou se já (e há muito tempo) por inerraigável hábito, por coagulada inércia, ou, além disso, e sem grandes mistérios ou dilemas existenciais, meramente por não ter pra onde correr, Rubens entorna a cerveja morna de seu canecão de superfície orvalhada e mira as luzes da cidade, ao longe, ao perto.
De vapor de sódio, de mercúrio, de argônio. Quentes, frias, de filamento, fluorescentes, halógenas, de LED.

As luzes das luminárias e das arandelas das casas térreas - vigias noturnos de seus alpendres, jardins, janelas e soleiras. As dos últimos apartamentos ainda resistentes ao sono - pagãos que não receberam a unção e o batismo de Morpheus. As dos letreiros das farmácias 24 horas e dos postos de combustíveis. As dos automóveis, as dos semáforos, as das praças tomadas por vagabundos e crackeiros, as dos postes de iluminação pública.

Miríades de esquálidos simulacros de mortiças estrelas, miríades de farsantes pequenos sóis. Paridas, tais luzes, das entranhas do pavor primal e atávico do ser humano frente ao escuro, à noite. Versão moderna, substitutas incompetentes, segundas em comando das crepitantes e fulgurantes fogueiras paleolíticas erigidas às portas das cavernas.

Não fossem já sobeja poluição eletromagnética, pensa Rubens, juntam-se a elas, nesta época do ano, as hediondas e piegas luzinhas de Natal.
Brancas, amarelas, multicores. Unidas em série. Irmanadas xifopagamente em extensas e intermináveis fieiras, penduradas em quilométricos varais. Parreiras de pequenos lumes a crescer, a trepar, a alastrar-se, a fixar-se com suas gavinhas de fios de cobre nas fachadas e nos portões de grades em forma de lança das residências. A enrolar-se, cipó-chumbo parasita, nos troncos e galhos das vetustas árvores das avenida principais da cidade e a atrapalhar o sono dos pardais e das andorinhas. E, sobretudo, a tomar, feito hera espinhenta e venenosa, as telas de proteção das sacadas dos prédios de apartamentos adjacentes ao de Rubens - as que mais chegam às suas vistas.
De brilho fixo, algumas. Intermitentes, tremelicantes e estroboscópicas, outras. A simular corrediço movimento de ida e volta, outras ainda. A escorrer verticalmente feito uma lágrima, que se chora sem se dar conta, outras poucas.

02h33.
Rubens começa nova, e de mais adequada temperatura,, caneca de cerveja. Do toca-CD : "...ah, mas que sujeito chato sou eu, que não acha engraçado, macaco, praia, carro, jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco...".
À mais que correta e precisa lista de Raul, Rubens acresceria, tranquilamente, as luzinhas de Natal. A fazer coro com as outras luzes, as não sazonais, a ampliar não a visibilidade, sim a neblina e a nebulosidade da paisagem noturna, as luzinhas de Natal proíbem que Rubens veja as estrelas cadentes, as naves-mãe das Plêiades, o baile dos sacis e dos pirilampos, o neon dos quasares e das anãs brancas, o striptease da túrgida Lua Cheia, que escute o cantarolar carnavalesco da Estrela D'alva.

Não permitem nem que ele vislumbre os fogos-fátuos verde-bário dos fantasmas de seu passado, de seus mortos e de suas várias mortes. Fogos-fátuos que são apelos, súplicas de S.O.S. telegrafadas no metano e na fosfina de sua alma defunta e decomposta.

3 comentários:

  1. Poético e natalino.

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  2. Suspeito que vi fogo fatuo esses dias. Ou um fantasma...

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    1. Quando eu era moleque, morei num bairro em que existia um brejo nas imediações, a gente via muito na época, principalmente quando o tempo estava muito seco. Depois disso, nunca mais vi.

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