Ele
sempre acorda uns 15 minutos antes do que seria o preciso e justo para
mijar, tomar seu café, coado diretamente à caneca (coador de pano, leite
e açúcar ao fundo), escovar os dentes, vestir-se, sair e chegar ainda
alguns minutos adiantado ao trabalho.
Acorda
com esses 15 minutos de folga para cagar, para aliviar os intestinos,
estejam eles pedindo, naquele momento, para serem aliviados ou não; o cu
é um órgão caprichoso, precisa ser disciplinado. Questão de segurança.
Vai a pé para o trabalho, mais de 4 km, e cada passada, e cada impacto
da sola gasta e quase a furar de seus tênis contra o asfalto, vai
aumentando a motilidade intestinal - ouviu ou leu em certa feita que
muitos maratonistas, por volta do quilômetro 30, não se aguentam e se
borram todos.
Não
foram poucas as vezes em que, em verdadeiro 13º Trabalho de Hércules,
conseguiu trancar a barragem do cu e evitar uma Brumadinho de merda; em
outras tantas, precisou se aliviar em postos de combustíveis pelo
caminho, entrava, comprava um pão de queijo, ou coisa parecida, e
perguntava pelo banheiro.
Hoje,
acrescentou outros 10 minutos aos habituais 15 destinados à evacuação.
Passar numa farmácia popular 24 horas, pegar o local vazio, evitar
senhas, filas e o pânico de estar entre gentes. Entra na farmácia. Só
mulheres atendendo ao balcão. Em outros tempos, há tanto tempo que se
poderia dizer até em outras eras, quando muito mais jovem, isso o faria
desistir de seu pedido.
Quantas
não foram as ocasiões em que ele, um jovem adulto, não peregrinara por
várias farmácias, até que encontrasse alguma com atendente homem e
pedisse lá dois ou três pacotes de preservativos?
Hoje,
velho, praticamente sexagenário, ri do quão ridículo fora, do quão
vergonhosa era sua vergonha, da importância que dava ao julgamento que
pudessem fazer dele ou de seu pedido; como a juventude é burra e
prepotente - a velhice, apenas burra.
Hoje,
sem receios, ressalvas, pudores e pouco se lhe dando o que possam ou
não pensar a seu respeito, dirige-se naturalmente à mocinha do balcão,
toda maquiada, bem penteada, perfumada, solícita e simpática. E pede
tadalafila, uso diário, 5 mg, caixa com 30 comprimidos, o genérico que
ela tiver mais em conta.
Recentemente,
já há muito sem trepar, apareceu-lhe uma louca disposta a lhe dar.
Cinquentona, sinais cansados na face e no corpo de ter sido muito
bonita, separada, filhos já criados, residente em uma cidade vizinha à
dele, sem pretender nada de sério ou laço mais forte, só mesmo dar uma
namoradinha vez ou outra, e só de sábado para domingo. Quando acontece,
alternam os fins de semana. Fim de semana um na casa dele, fim de semana
outro, na dela. Durante a semana - ficou bem estabelecido e acordado
entre eles -, cada um tinha a sua vida pra cuidar.
Em
suma, queria-o, e era recíproco da parte dele, apenas para meter, gozar
sem compromisso ou consequências emocionais maiores. E o que mais não
restava a ela em encantos físicos, sobejava-lhe em técnica, traquejo e
entrega.
Na
quarta-feira, então, anterior ao sábado do encontro, ele começa a tomar
seus 5 mg cotidianos de tadalafila, que permanece cerca de 36 horas no
organismo; desta forma, no sábado, está com boa concentração do
paudurescente no seu plasma sanguíneo. Gozar, raramente ele goza mais de
uma vez, a idade cobra dele cada vez mais esforço físico para atingir o
clímax, mas fica de pau duro o quanto e quantas vezes a maluca precise.
E como ela precisa, da maneira que só os desvalidos e desesperançados
são capazes de.
- Uma caixa sai por X reais, três, por 2X reais - disse a mocinha, ao que ele respondeu que levaria as três.
Oito
reais e alguns centavos por cada caixa com 30 comprimidos, menos de 30
centavos por dia para ficar de prontidão o mês inteiro. Nunca foi tão
fácil e barato ficar de pau duro, pensa ele.
Então,
a balconista, treinada para tal que foi, declama o mesmo discurso de
todas as outras balconistas que o atendera nas mais diversas drogarias :
- O senhor não gostaria também de estar levando (sic) esses polivitamínicos, esses suplementos minerais etc etc?
Querendo,
logicamente, em primeiro plano, fazer com que o velho gaste mais ali;
depois, fazer com que o velho creia que, se seu organismo estiver em dia
com todas as letras do alfabeto bioquímico e da tabela periódica, nem
precisaria da tadalafila - suplementos caríssimos, e inócuo, como quase
tudo o que é caro e pomposo.
Ele pensa : não,
minha filha, não quero repor minerais nem vitaminas, não quero ser um
modelo de salubridade, não quero gabaritar no próximo hemograma, só
quero ficar de pau duro uma vez por semana, simples assim.
No entanto, diz e mente a ela : - não, muito obrigado, já faço uso desses suplementos e ainda os tenho em casa em boa quantidade.
Paga
com cartão de débito, pega as caixas do remédio e a nota fiscal,
acondicionadas em uma sacolinha plástica pela moça do caixa e segue ao
trabalho.
No caminho, já ingere o primeiro comprimido.
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