segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Um Dia na Vida (22)

Um dia qualquer da semana. Dos chamados dias úteis. Preto na folhinha.
Ele sempre acorda uns 15 minutos antes do que seria o preciso e justo para mijar, tomar seu café, coado diretamente à caneca (coador de pano, leite e açúcar ao fundo), escovar os dentes, vestir-se, sair e chegar ainda alguns minutos adiantado ao trabalho.
 
Acorda com esses 15 minutos de folga para cagar, para aliviar os intestinos, estejam eles pedindo, naquele momento, para serem aliviados ou não; o cu é um órgão caprichoso, precisa ser disciplinado. Questão de segurança. Vai a pé para o trabalho, mais de 4 km, e cada passada, e cada impacto da sola gasta e quase a furar de seus tênis contra o asfalto, vai aumentando a motilidade intestinal - ouviu ou leu em certa feita que muitos maratonistas, por volta do quilômetro 30, não se aguentam e se borram todos.
 
Não foram poucas as vezes em que, em verdadeiro 13º Trabalho de Hércules, conseguiu trancar a barragem do cu e evitar uma Brumadinho de merda; em outras tantas, precisou se aliviar em postos de combustíveis pelo caminho, entrava, comprava um pão de queijo, ou coisa parecida, e perguntava pelo banheiro.
 
Hoje, acrescentou outros 10 minutos aos habituais 15 destinados à evacuação. Passar numa farmácia popular 24 horas, pegar o local vazio, evitar senhas, filas e o pânico de estar entre gentes. Entra na farmácia. Só mulheres atendendo ao balcão. Em outros tempos, há tanto tempo que se poderia dizer até em outras eras, quando muito mais jovem, isso o faria desistir de seu pedido.
Quantas não foram as ocasiões em que ele, um jovem adulto, não peregrinara por várias farmácias, até que encontrasse alguma com atendente homem e pedisse lá dois ou três pacotes de preservativos? 
 
Hoje, velho, praticamente sexagenário, ri do quão ridículo fora, do quão vergonhosa era sua vergonha, da importância que dava ao julgamento que pudessem fazer dele ou de seu pedido; como a juventude é burra e prepotente - a velhice, apenas burra.
Hoje, sem receios, ressalvas, pudores e pouco se lhe dando o que possam ou não pensar a seu respeito, dirige-se naturalmente à mocinha do balcão, toda maquiada, bem penteada, perfumada, solícita e simpática. E pede tadalafila, uso diário, 5 mg, caixa com 30 comprimidos, o genérico que ela tiver mais em conta.
 
Recentemente, já há muito sem trepar, apareceu-lhe uma louca disposta a lhe dar. Cinquentona, sinais cansados na face e no corpo de ter sido muito bonita, separada, filhos já criados, residente em uma cidade vizinha à dele, sem pretender nada de sério ou laço mais forte, só mesmo dar uma namoradinha vez ou outra, e só de sábado para domingo. Quando acontece, alternam os fins de semana. Fim de semana um na casa dele, fim de semana outro, na dela. Durante a semana - ficou bem estabelecido e acordado entre eles -, cada um tinha a sua vida pra cuidar.
 
Em suma, queria-o, e era recíproco da parte dele, apenas para meter, gozar sem compromisso ou consequências emocionais maiores.  E o que mais não restava a ela em encantos físicos, sobejava-lhe em técnica, traquejo e entrega.
Na quarta-feira, então, anterior ao sábado do encontro, ele começa a tomar seus 5 mg cotidianos de tadalafila, que permanece cerca de 36 horas no organismo; desta forma, no sábado, está com boa concentração do paudurescente no seu plasma sanguíneo. Gozar, raramente ele goza mais de uma vez, a idade cobra dele cada vez mais esforço físico para atingir o clímax, mas fica de pau duro o quanto e quantas vezes a maluca precise. E como ela precisa, da maneira que só os desvalidos e desesperançados são capazes de.
 
- Uma caixa sai por X reais, três, por 2X reais - disse a mocinha, ao que ele respondeu que levaria as três. 
Oito reais e alguns centavos por cada caixa com 30 comprimidos, menos de 30 centavos por dia para ficar de prontidão o mês inteiro. Nunca foi tão fácil e barato ficar de pau duro, pensa ele. 
Então, a balconista, treinada para tal que foi, declama o mesmo discurso  de todas as outras balconistas que o atendera nas mais diversas drogarias :
- O senhor não gostaria também de estar levando (sic) esses polivitamínicos, esses suplementos minerais etc etc? 
 
Querendo, logicamente, em primeiro plano, fazer com que o velho gaste mais ali; depois, fazer com que o velho creia que, se seu organismo estiver em dia com todas as letras do alfabeto bioquímico e da tabela periódica, nem precisaria da tadalafila - suplementos caríssimos, e inócuo, como quase tudo o que é caro e pomposo. 
 
Ele pensa : não, minha filha, não quero repor minerais nem vitaminas, não quero ser um modelo de salubridade, não quero gabaritar no próximo hemograma, só quero ficar de pau duro uma vez por semana, simples assim. 
No entanto, diz e mente a ela : - não, muito obrigado, já faço uso desses suplementos e ainda os tenho em casa em boa quantidade.
 
Paga com cartão de débito, pega as caixas do remédio e a nota fiscal, acondicionadas em uma sacolinha plástica pela moça do caixa e segue ao trabalho.
No caminho, já ingere o primeiro comprimido. 
 

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